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O MUNDO - A INVEJA

O Mundo - 01 de Fevereiro de 2022 29:01 min

TRANSCRIÇÃO:

Norma: Olá queridos Amigos, e bem vindos a um novo programa El Mundo. Temos conosco, como de costume, o Dr. Michael Laitman e hoje vamos falar de um assunto muito interessante, a inveja. Rav Laitman, bem vindo.

Rav: Conseguem ouvir-me? ok! Estou muito contente por estar com vocês no programa e vamos falar sobre a Inveja!?Ok! A inveja é um atributo muito importante para a pessoa. Todo o nosso progresso é baseado na inveja. Sim senhora, vamos la!

Norma: Então, vamos começar por tentar elucidar este tema. A inveja é um sentimento, uma emoção, ou, um estado mental onde existe dor, ou tristeza, devido não possuírmos o quê a outra pessoa possui. Geralmente é assim como se define. E, temos a tristeza, ou pesar, aquilo que não temos: o tesouro de outra pessoa. O escritor, Cervantes, em sua obra D. Quixote, define a inveja como: “ a raiz de toda a baixeza e males dentre os atributos humanos”. Porém, de acordo com a Sabedoria da Cabalá, o que é a Inveja?

Rav: A inveja é na verdade o resultado direto do ego de uma pessoa, de seu desejo de receber para benefício próprio. Através desse ego a pessoa sente o que outra pessoa possui e que ele não possui. Ou, que possui, mas não é suficiente em comparação ao que vê nos outros. E isto é o que nos empurra para a frente, para desenvolvimento. Ou seja, a inveja precisa de ser vista como um grande motor, muito forte no desenvolvimento das pessoas, das nações, dos países e do mundo. E tudo isto desperta inveja. Isso inclusive acontece no mundo animal, e não apenas nos humanos. Vemos isto nos nossos filhos, isto está claro, por exemplo. Se uma criança pequena vê a sua mãe pegar em alguém, ele imediatamente corre para ela e começa a querer que sua mama o pegue em seus braços. E não importa a idade, nós somos muito sensíveis à inveja. Parece-nos que valemos menos, somos menos iguais e queremos crescer mais. Queremos ser melhores, mais bonitos, mais fortes. A inveja tem vários tipos e várias percepções. Nós verificamos e escolhemos ser invejosos. Portanto é possível dizer, tal como está escrito na sabedoria da Cabalá: A inveja, a luxúria e a honra tiram o homem deste mundo. Quer dizer que o homem tem essas três coisas: honra, luxúria e inveja. Estas forças não nos deixam descansar e levam-nos para um nível mais elevado. A inveja é uma força positiva que nos permite desenvolver. Mas, às vezes funciona da maneira oposta. Em vez de nos desenvolvermos e de sermos melhores, queremos matar as outras pessoas. Então, não teremos esforço, e não vamos fazer melhor que nada. Não importa como olhamos para este assunto, temos que ver a inveja como uma enorme força do nosso desenvolvimento. Através da competência.

Norma: Sobre o que o senhor acaba de dizer desses três aspectos importantes, que também estão ligados à inveja, à luxúria e à honra. Baal Hasulam (Rav, Yehudá Ashlag) nos disse em Shamati 9, que são as três coisas que amplificam a mente da pessoa no trabalho, à inveja, à luxúria e à honra que tiram a pessoa deste mundo….

Rav: À inveja, à luxúria e à honra, sim!

Norma: Ao que se refere quando diz: “lhes retira do mundo”?

Rav: Que nos leva ao um nível mais elevado, assim é como devemos ver isto. Em verdade também me recordo destas questões, eu também as fazia. O que quer dizer que são tirados do mundo? Que o matam? Não! É o oposto. Toda a Sabedoria da Cabalá fala acerca de elevar uma pessoa, de um nível a outro, e verifica-se que a inveja, a luxúria e a honra, são as três coisas que através das quais devemos nos elevar de onde estávamos para um mais elevado, ser melhor.

Norma: Para poder se elevar a esse estado superior, ou a esse nível superior do qual se encontra como o senhor está a falar, há alguma condição? Porque estas são normalmente características vistas como negativas, a inveja, a luxúria e a honra?

Rav:Não, Não. A Sabedoria da Cabalá precisamente explica, por exemplo no que diz respeito à inveja está escrito, que a inveja de pessoas de valor aumenta a sabedoria. Isso quer dizer que através da inveja as pessoas entram em conexão e verificam como podem atingir coisas mais elevadas, não apenas ser melhor que o outro. Claro que isso vai sempre estar em todo o lado, mas o facto de possuirmos o poder da inveja, podemos argumentar, podemos investigar coisas entre nós e depois, através destes argumentos e competições, vamos alcançar patamares mais elevados, vamos abrir o mundo. É isso que queremos ser.

Norma: Do que acaba de referir acerca dos nossos sábios, no Talmud da Babilônia diz: Hazal que a inveja dos escritores aumentará a sabedoria, o que significa esta expressão?

Rav: Que a inveja dos escritores aumenta a sabedoria, que dizer até que pontos essas pessoas de valor que estudam, cientistas, querem o conhecimento, querem desenvolver, quanto mais eles estiverem em mútua inveja, isso empurra-os, e leva-os a ficarem mais e mais desenvolvidos. E isto é como a sabedoria vai ser revelada e desenvolvida.

Norma: Porque a inveja vai aumentar a nossa inteligência, a sabedoria?

Rav: Porque queremos ser maiores do que os outros. O fogo da inveja realmente faz-nos arder. Porque é que não podemos ser como eles?! E então investimos mais e mais recursos até alcançarmos um nível mais elevado, onde seremos mais capazes. E depois a segunda pessoa, e depois a terceira também. E desta forma, avançamos a humanidade. Portanto, a sabedoria é multiplicada através da inveja.

Norma: Então, porque nos ensinam desde pequeninos que não devemos sentir inveja pelos outros?

Rav: Eu não sinto que nós devemos nos proteger da inveja. Precisamos de desenvolvê-la. Precisamos ensinar às nossas crianças como a utilizar corretamente. Vemos como uma Mãe está ao lado da sua criança e lhe diz, “Olha como ele está a saltar. Olha como ele está a estudar. Aprende com ele. Observa. Faz o que ele está a fazer.” Portanto, ela acorda a inveja na criança.

Norma: Há alguma diferença entre a inveja que conhecemos neste mundo no geral, que eu não quero que alguém possua o que ele tem, mas sim eu que eu quero ter? É diferente da inveja espiritual que o outro tem?

Rav: Sim, também há essa inveja. Precisamos ainda acima de tudo classificar os diferentes tipos de inveja. O tipo de inveja que nos causa o desenvolvimento geral, tanto como na pessoa individual, como para uma nação e para o mundo inteiro. E a inveja que destrói, que eu uso para diminuir todos à minha volta, e apenas manter o que possuo. Que eu permaneça forte, rico, sábio, tudo. Esse é o problema: “ Como ensinar as pessoas a forma correta de usar a inveja”.

Norma: Podemos dizer que pode existir a inveja espiritual, na qual eu não quero diminuir a outra pessoa, não anseio ser como ela, ter as mesmas qualidades que ela tenha? Essa diferença não assistiria mais em: “eu não quero que o outro, tenha, mas, que eu tenha!’. Senão que, quero que “o outro tenha e eu também”.

Rav: Sim, a inveja espiritual é normalmente construída do fato de que eu não quero diminuir os atributos da outra pessoa, mas quero aumentar os meus. Porém, na verdadeira espiritualidade, verificamos que para melhorar os meus atributos, só o posso fazer, melhorando os atributos dos outros. É o oposto do que acontece conosco. Portanto, é precisamente através da inveja de muitos que aumentamos a sabedoria e ao fazer isso, elevarmo-nos uns aos outros, melhorarmos uns aos olhos dos outros, quer eles queiram, quer não, fazem-no à força, acima do seu ego, para expandir o que possuem e dar o que possuem a todos. Eu recebi do meu Professor blocos de notas. Eu recebi de Rabash blocos de notas manuscritos, e quando ele morreu, ele me entregou. É todo o meu arquivo. E eu preparei-o todo, e partilhei-o com todos. Permiti a todos que fotografassem para que eles não pensassem que era eu a publicar, mas sim o nosso mestre, Rabash. Ele foi aquele que escreveu e portanto, não pertence apenas a mim, senão que para todos.

Norma: É um belo exemplo. Como podemos transformar a inveja em algo positivo e benéfico para todos, antes de pensarmos em nosso próprio benefício?

Rav: Se eu tenho um objetivo, para o maior benefício da humanidade, então eu posso usar este objetivo. Com, ou sem a inveja, a parte principal é que é para benefício da humanidade. Portanto, tenho que verificar por mim mesmo como é que chego ao bom nível de inveja boa e correta. Portanto, está escrito que é bom ter inveja para incrementar a sabedoria, que vale a pena invejar para poder desenvolver, crescer, tornar-se maior, mais influente, ensinar os demais, dar, repartir o mais possível.

Norma: Qual é a raiz espiritual da inveja, a raiz com a qual necessitamos conectar-nos?

Rav: É o nosso desejo egoísta, a nossa vontade de receber. Portanto, na medida em que avançamos com a nossa vontade de receber, com o nosso ego, crescemos e na mesma medida, avançamos também em inveja. Portanto, aquele que é maior que o seu amigo, o seu ego é também maior. A sua natureza é maior, e assim avançamos.

Norma: Rabash no seu artigo número 21 de 1986, disse o seguinte: que devido à inveja se pode adquirir poderes adicionais que não tem por parte da natureza com as qualidades com que nasceu. Mas, com grau de inveja que tens dá-lhe esse poder, é dado luz a ele, novas forças nele, que se encontram na sociedade. E por eles recebeu essas novas qualidades, novas forças que não existiam nele por parte dos pais que o geraram. Descobriu agora novas qualidades, que a sociedade gerou nele. O que necessitamos de invejar da sociedade?

Rav: Na sociedade existe sempre mais do que existe num indivíduo. É necessário verificar primeiro o que precisa. E primeiro que tudo uma pessoa precisa de se analisar e verificar até que ponto, com que forças necessita para poder influir na sociedade, para poder elevá-la a um estado mais elevado do que aquele em que se encontra, e se tem a possibilidade de adquirir esses atributos, estas forças, para elevar a sociedade. Então ele pode realmente ser uma pessoa grande e importante.

Norma: Este trecho então fala na realidade de como o ambiente influencia a pessoa em qualidades novas que não tinham antes. Pode explicar este trecho?

Rav: Sim, sim, também! A pessoa deve buscar um ambiente, uma sociedade que lhe influencie e que o obrigue mais e mais a elevar-se do estado em que se encontra. E então, através da sociedade, tal como nos escreve Rabash, uma pessoa deve escolher um ambiente melhor, mais especial, um ambiente excelente, e então, ele próprio, também vai ser elevado, junto com a sociedade.

Norma: O que acontece se eu não sentir inveja? O que significa? Algumas pessoas dizem que não são invejosas…

Rav:Isso é porque o seu orgulho o está a ocultar, o quanto elas, na realidade, são menos que os outros, e não maiores. Isso é por um lado, e por outro, o quão preguiçosos são. As pessoas preguiçosas não querem trabalhar. Portanto, não dizem que há alguma coisa para alcançar. Porque alcançar coisas mais elevadas exige grandes forças e investimento. E eles querem permanecer tal e qual como estão.

Norma: Baal Hasulam na introdução ao Livro do Zohar número 38 diz que enquanto o homem que pode sentir aos outros lhe falta também tudo o que os outros têm, então, desta forma ele enche-se de inveja para obter tudo o que existe nos outros. Se ele tem uma porção, quer publicá-la. E assim, as suas carências e desejos são multiplicados, até que ele queira engolir o mundo inteiro. Como nos pode explicar isto?

Rav: Se uma pessoa quer se desenvolver, então ela tem inveja de todos. Ele procura como se pode desenvolver. Na sabedoria da Cabalá é um tema diferente, porque eu busco através do que uso, posso dar à sociedade, ao ambiente, ao mundo, através de que uso isso para doar ao Criador, para lhe trazer contentamento, porque o Criador (Boré) está na sociedade. Portanto, quanto maior é a sociedade, ali Ele se encontra. Claro que também pode estar oculto e então eu tenho que tentar influenciar positivamente toda a sociedade por forma a beneficiá-la, a elevá-la para um ambiente mais elevado nos seus atributos e então, assim, estou a trazer contentamento ao Criador.

Norma: A inveja é normalmente uma característica que se atribui mais as mulheres. O senhor sente que é a mesma proporção, a mesma medida nos homens e eles simplesmente demonstram menos, ou há alguma diferença?

Rav: É diferente no tipo da inveja. A mulher é mais invejosa externamente com outras mulheres. Esta é a forma como advém da natureza. O homem também é invejoso externamente, mas também na essência interna. Portanto, precisamos diferenciar estas relações que há entre os homens e as mulheres no que diz respeito à inveja. Mas estas coisas mudam de cultura para cultura, de geração para geração. Portanto, não podemos determinar alguma coisa que foi dito. E apesar de tudo avançar mais para o desenvolvimento da pessoa e mais e mais prestar menos atenção à forma exterior e cada vez mais olhar para a forma interna de uma pessoa. Porque não importa o quão bem parecidas as pessoas são, como bem vestidos estão, como falam bem e todo o tipo de formas externas. Senão, que vamos preocupar-nos com a essência de uma pessoa. A forma interna. Quem é esta pessoa à minha frente? E aqui já estou a alcançar percepções completamente diferentes. Mas, para isso eu preciso de ser desenvolvido, na medida em que eu quero revelar sua internalidade.

Norma: Quando se diz que um homem é mais invejoso da essência de uma pessoa, o que significa isto?

Rav Os homens são mais atraídos pela internalidade de outros? E as mulheres são mais atraídas pela externalidade de outras mulheres. Isto é a forma como acontece na natureza. Mas, novamente, quando começamos a desenvolver tudo pode mudar. Eu vi mulheres que são mais essenciais, mais internas, muito espirituais. E ao lado delas estavam homens, que estavam vários níveis abaixo delas.

Norma: Porque nos parece que um homem, normalmente é mais invejoso no que diz respeito aos bens materiais de outra pessoa, ou a honra que outros alcançaram. Não é assim na vida terrena, na vida quotidiana?

Rav: Na nossa vida do dia a dia, o homem é mais invejoso por dinheiro, respeito, sabedoria, e uma mulher é mais invejosa de caráter e também a honra no que diz respeito às outras mulheres. Mas, estas coisas não são realmente importantes para nós. O que é importante para nós é quando uma pessoa começa a sentir inveja de outros homens e mulheres para elevar-se nos níveis espirituais. Isso é que é importante.

Norma: Que conselho nos pode dar para atingirmos este objetivo, a esta meta superior, de sentir inveja das qualidades espirituais e não materiais do outro?

Rav: Eu diria que precisamos dividir as nossas vidas em dois. A parte relacionada com parte material, fisica: comida, sexo, familia, dinheiro, honra, sabedoria. devemos estar netas necessidades básicas. E também temos a parte das percepções espirituais: O amor pelo Criador, amar os outros como a nós mesmos que é o ponto de partida para amar o Criador, para revelar a Alma, preencher a alma e este é o modo de avançar. E precisamos de ambos, enquanto vivermos neste mundo, precisamos de nos relacionar corretamente com tudo o que temos aqui neste nível.

Norma: E o senhor que tem inveja?

Rav: De que tenho inveja? Eu tenho grande inveja dos grandes Cabalistas. Eu estive próximo de um Grande Cabalista. E a partir dele posso pensar como e qual a essência dos grandes Cabalistas que vieram antes dele. Certamente que há muito de que ter inveja do meu ponto de vista. E penso que precisamos desejar a isto tanto homens como mulheres. Precisamos aspirar a isto. Precisamos entender que este mundo é temporário, pequeno. Não há nada realmente de valor aqui para nos agarrarmos. Adquirir e controlar e agarrar-se como uma criança agarrada a um brinquedo. Este mundo não vale a pena. Em vez disso, devemos alcançar a verdade. E isso é através da nossa conexão, através do amor entre as pessoas, sem inveja ou com inveja, ao elevarmo-nos acima disto, para um nível onde cada um tem inveja dos outros, até que ponto seremos capazes de dar, amar, doar, fazer bem ao próximo e com isto todos teremos inveja e nos elevaremos.

Norma: É possível que tenha inveja dos seus estudantes?

Rav: Sim, claro. Eu tenho inveja deles e eles têm inveja de mim. E entre eles também. Vale a pena.

Norma: Portanto, tem inveja dos seus estudantes?

Rav: Olhe, eu estou numa idade que estou acima da inveja e tudo o que possam dizer por um lado. Por outro lado, eu os invejo. Eles têm forças, eles têm oportunidades, possibilidades. Eles têm tudo na frente deles. E também tudo à minha frente. De acordo com a minha natureza eu sinto-me jovem. Mas ainda assim há limitações. Vamos tentar ser como jovens.

Norma: Eu espero que assim seja. Muito obrigada Dr. Michael Laitman. Foi um tópico muito interessante. Espero que sejamos bem sucedidos a utilizá-lo, esta característica de inveja, para o benefício de todos. Obrigada.

Rav: Obrigado e, obrigado a ti e a todos os ouvintes.