Kabbalist Dr. Michael Laitman will discuss what is a yearning for spirituality according to the wisdom of Kabbalah.

Kabbalist Dr. Michael Laitman will discuss what is a yearning for spirituality according to the wisdom of Kabbalah.

Episódio 209|13 de out de 2022

O MUNDO - O ANSEIO

O Mundo - 13 de Outubro de 2022 27:54 min

TRANSCRIÇÃO:

Norma: Olá e bem vindos ao Programa O Mundo. Novamente temos um tópico muito interessante para conversarmos com Dr. Michael Laitman. Hoje queremos falar sobre esse tema Dr Laitman , mas antes de tudo muito obrigada por estar conosco, e queremos conversar com o Sr. acerca do anseio, do desejo ardente. Obrigada novamente por nos dar essa oportunidade.

Rav: Sim. Feliz por estar aqui. O tópico em si mesmo é surpreendente, e sim será provavelmente muito interessante falar sobre, então avancemos.

Norma: O Anseio é um desejo como sabemos que alguém o sente de maneira muito intensa, pode ser algo tangível, ou intangível. Rabash, na Carta 21 diz o seguinte: “Baal HaSulam disse que nada tem sabor a não ser que exista um desejo e um apetite por ele, chamado Anseio. O que é o Anseio para a Sabedoria da Cabalá?

Rav: O Anseio é um desejo ardente, a falta de algo, é uma tendência para com algo que queremos realmente e que não temos. E se não o podemos ter, então sofremos e se depois disso, o obtemos, então a sensação de satisfação acontece na mesma medida do sofrimento para a obter. Portanto tem que existir o anseio, o desejo ardente, o sofrimento, a falta. E só depois, se recebermos e nos satisfazemos, então sentimos prazer. Não pode haver prazer a não ser na medida do Anseio.

Norma: E qual é a diferença Dr. entre desejo comum e o anseio ardente?

Rav: Um desejo comum é quando queremos algo, mas não temos uma necessidade absoluta. Não queremos mesmo alcançar isso. Mas o anseio, diz o quanto sofro por não obter o que desejamos.

Norma: E qual é a origem do desejo ardente pela espiritualidade por exemplo? Como nasce, de onde vêm? É algo com o qual todos nascemos? Com esse Anseio pela espiritualidade?

Rav: Não. No que diz respeito ao desejo ardente, há algumas coisas que devemos mencionar. Como é que eu desejo ardentemente? Eu desejo algo ardentemente porque provei algo, e esse sabor permanece e de acordo com as minhas memórias disso, eu almejo obter essa coisa que me fez sentir bem. Ou então, nunca senti o sabor por essa coisa, então como posso ter desejo por ela? Talvez porque olho para os outros, e porque tenho inveja, luxúria e honra em relação a prazeres que os outros provavelmente sentem, eu também quero receber o que eles têm. Vemos isso especialmente em crianças pequenas. Quando veem um jogo que os outros têm, um amiguinho deles, eles também querem, e gritam, apesar de não o possuírem, de nunca terem brincado com ele, de nunca o terem alcançado. Portanto, por forma a termos um anseio, precisamos de ter várias condições. Ou já tivemos um prazer que desapareceu, que perdemos, e então ansiamos por esse prazer que tivemos, que desejamos. Ou, se não o possuímos, então não podemos ansiar por ele. E se o ansiamos, realizo-o por aquele prazer que obtive, ou que se teve e desapareceu e assim queremos ainda mais do que antes. Há várias coisas aqui sobre as quais podemos falar, e revelar um pouco mais. Tudo depende do ambiente. Na medida pela qual olhamos para a sociedade que nos rodeia, e a sociedade valoriza o que anseio, mais ou menos, é tudo na medida em que a sociedade que me rodeia o valoriza e então vemos que é uma questão de publicidade, moda, etc. Quanto mais os outros apreciam algo, na mesma medida, eu também o aprecio, e anseio por ele.

Norma: De que depende, ou quais os parâmetros para averiguar se um anseio é correto, ou não? Se é bom ou mau? Com que critério ou medida posso julgar?

Rav: É difícil avaliar isso porque estamos submergidos num grande oceano de opiniões, anseios, aspirações, exemplos de desejos, diferentes desejos de várias pessoas, e não sabemos o que é bom, ou mau, apenas olhamos para os outros, e desejamos o que os outros desejam. Então o que se segue é que normalmente anseio pelo que todos os outros anseiam, valorizo o que os outros apreciam, e esse é o problema!

Norma: Dr. Laitman, de acordo com a Sabedoria da Cabalá, que tipo de anseios são mais importantes de possuir e porquê?

Rav: De acordo com a Sabedoria da Cabalá é preferível para nós descobrir qual é o nosso verdadeiro desejo, o que precisamos de ansiar por forma a obtermos o que desejamos realmente, para que a satisfação que vamos obter seja verdadeira. Que nos preencha, e que na verdade fiquemos felizes com isso. Mas como podemos saber isto antecipadamente? Portanto, corremos a vida toda, tentando apanhar isto e aquilo, e é como passamos as nossas vidas, como gastamos as nossas forças até eventualmente deixarmos este mundo.

Norma: A pergunta é precisamente essa, como podemos saber antecipadamente qual é o Anseio que realmente vale a pena ter. Porque cada um pode dizer “que é isto, ou aquilo pois crer que lhe trará prazer”, porém, mais tarde verificam que afinal não é assim, com todos os seus anseios materiais seus êxitos !

Rav: Há vários tipos de anseio, desejos por bens físicos, materiais, sucesso, portanto aqui a Sabedoria da Cabalá explica: qual a Natureza em si mesma. Qual a natureza do homem? E como pode o homem alcançar um estado de equilíbrio com a natureza no geral, e então, por meio disso, ele vai alcançar equilíbrio entre o seu anseio e aquele que pertence à natureza e vai ficar calmo e harmonizado com tudo o que acontece em sua vida.

Norma: Tales de Mileto, um filósofo e cientista grego que viveu entre 624 e 547 AC, disse: “O maior prazer é obter aquilo pelo qual ansiamos.” Parece ser bastante semelhante com o que diz a Sabedoria da Cabalá. Porque é que quando obtemos aquilo que parecia tão distante de obter, temos tanto prazer?

Rav: Porque isto preenche o desejo daquilo que o homem desejava tanto obter. Mas uma vez que o obtém, fica com a mesma sensação de prazer? Normalmente o que a pessoa descobre é que na realidade não o preencheu tanto como estava à espera porque na sua imaginação, esperava algo muito para além disso, algo completo, eterno, que fica nas suas mãos e quando o obtém verifica que não é exatamente como imaginou.

Norma: Quando não obtemos o que desejamos, isso pode levar-nos a sentir frustração, tristeza e aborrecimento, e a fazer um esforço suplementar para obter o que ansiamos. Às vezes pode acontecer o contrário, pode levar-nos ao desespero, a perda da esperança. A pergunta é: Em que medida devemos fazer um esforço para obter o que desejamos, ou pelo contrário, quando devemos parar, quando vemos que as coisas não estão a correr a nosso favor, e devemos aceitá-las como a situação que estais presente?

Rav: Bem, está a falar de uma forma muito racional. Não penso que uma pessoa consiga funcionar desta forma. Ou seja, certo, se eu vejo que aquilo pelo qual anseio não está ao meu alcance, que é algo exaltado, então deixo para trás, e não penso mais nisso, porque assim não sofro. Pode ser que procure outras formas de o alcançar. Isso já depende do tipo de pessoa, de que tipo de emoção e intelecto que possui e que quanto considera o que fazer.

Norma: Como se pode saber então, quando continuar, e quando desistir, quando largar esse ideal, esse anseio?

Rav: Isso depende da pessoa, na medida em que quer, compreende, aprecia a medida do seu esforço comparado com o prazer que pode obter. Há aqueles que dizem, “muito bem, podemos esforçar-nos por um dia ou dois”, e há aqueles que dizem, “não, posso trabalhar nisso por um ano, para obter o que desejamos”, e há outros que simplesmente não conseguem largar, e examinam, e continuam a analisar e continuam, até quando? Até mesmo ao fim das suas vidas.

Norma: Na espiritualidade, que resultado advém da sensação de que não existe avanço?

Rav: A sensação de que não existe progresso leva a pessoa ao desespero qualquer que seja o caso. E então, a pessoa precisa de analisar: deve continuar no caminho na direção daquele objetivo, ou o objetivo é errado, e então a pessoa precisa de mudar os meios para o alcançar, ou, o objetivo está correto, mas a pessoa não possui os meios para o obter. E então ele procura, olha. Normalmente, na Sabedoria da Cabalá, a pessoa precisa de chegar ao ponto em que se examina constantemente, e constantemente muda o seu modo, e consegue alcançá-lo. Tudo está organizado de forma a mudar a pessoa, a convencê-la de que precisa de ultrapassar e alcançar o objetivo.

Norma: E como podemos evitar a frustração no caminho espiritual? E Se é inevitável se frustrar, então como usar essa frustração corretamente?

Rav: Precisamos, em todo o tempo, trabalhar em valorizar o objetivo, quão preciso ele é, e como não existe mais nada senão esse objetivo, e o quanto precisamos de estar nele e quanto precisamos de continuar ligados a ele no futuro. E além disso, não há outro objetivo na vida. Viver, viver por mais alguns anos, não depende de nós. O que se segue é que precisamos determinar por nós mesmos, o que desejamos obter durante a nossa vida e isso é um problema.

Norma: Podemos dizer que quando um desejo se concretiza, torna-se uma realização. E o desejo pelo que queríamos, simplesmente desaparece. Então como pode ser que o anseio em si mesmo nos dá mais prazer do que obter o alcance desse desejo? Por exemplo, o que sentimos quando planejamos uma viagem e quando chegamos no lugar já damos por conta que não estamos com a mesma excitação como tivemos quando estávamos planejando a viagem? Ou um casamento no qual a preparação dá um sentimento de felicidade, e expectativa, e anseio, mas passado um ano vemos que há um declínio forte no desejo de estar junto. Por quê?

Rav: É sempre assim. Quando penso em algo, mas não está ainda nas minhas mãos, então é isso com o qual sonho, planejamos, que se encontra nas minhas fantasias, ainda não está limitado de alguma forma, por algum vaso, e todos pensam assim, que é algo mais do que na realidade. Porque a nossa fantasia acrescenta à forma em si mesma. Como acontece com os casamentos. Quando olhamos para a forma como o casamento vai ser, pensamos que a noiva será como uma rainha, a noiva é a rainha da beleza e todos olham para ela dessa forma, e ela chegará numa espécie de carruagem com cavalos e tudo, por um lado. Por outro lado, quando chega, então vemos que alugamos um lugar para o evento, nos arredores da cidade, e alguns ônibus e carros chegam e preenchem o lugar o que elas querem é beber e dançar e a noiva, sim, tudo bem, a noiva está sentada e aborrecida, isso é o casamento. Ainda que tenham planejado, imaginado o casamento por seis meses ou um ano. É sempre assim que pensamos. Qualquer coisa grandiosa sobre a qual pensamos, quando chega até nós, hoje acontece, mas amanhã já nos esquecemos dela.

Norma: Então, no caso oposto, em que não estamos a falar da espiritualidade, quando obtemos algo que desejamos, perdemos o sabor pelo que obtemos. Mas na espiritualidade esse anseio cresce, e continua a crescer? É essa a diferença?

Rav: Sim, é verdade. Na espiritualidade, não podemos imaginar para nós mesmo o que significa a aceitação espiritual, ansiedade espiritual, revelação espiritual e quando a alcançamos está para além da nossa imaginação, muito para além da nossa imaginação. Porque aí recebemos essa informação nos novos vasos, nova ansiedade, e isso em si é uma coisa diferente..

Norma: E a satisfação que recebemos ao alcançar este anseio, também é muito maior?

Rav: Sim, a satisfação sim. Sem dúvida, sem medida.

Norma: A Rabash, na explicação do artigo Prefácio da Sabedoria da Cabalá (capítulo 4) diz: "Há duas condições para fazer o anseio. 1) é saber pelo que ansiamos, uma pessoa não pode ansiar por algo que não sabe o que é. 2) é que não vai haver um anseio por uma coisa, se a pessoa já obteve o que procurava. A pergunta é: Como é que é possível ansiar pela vida espiritual que nunca vivemos ou tenhamos vivido?

Rav: Estas memórias existem em nós para começar. Para além de estarmos no nível animado, como animais, temos também o nível de Adam, aquele que é semelhante ao Criador, e temos estas memórias, porque já estivemos em contato com o Criador, e caimos desse nível, e portanto, estamos num estado em que ansiamos por isso. Não sabemos, não vemos, não sentimos, não compreendemos do que se trata, mas o anseio está lá.

Norma: Podemos perder este anseio pela vida espiritual? E como evitar que isso aconteça para não perdê-lo?

Rav: Pode aumentar e diminuir e precisamos de garantir que não desaparece. Tudo depende do ambiente. Se me encontro num ambiente que almeja pela espiritualidade, que almeja chegar até ao Criador, então, eu também almejo, e sigo os que me rodeiam e alcanço um ponto em que realmente desejo e começo a correr atrás disso.

Norma: Escutamos que Rabash dizia que é impossível comprar o anseio na farmácia, então como obtemos este desejo ardente?

Rav: Apenas por meio do ambiente que nos rodeia. Através de livros, professores e amigos. Se uma pessoa garantir que tem sempre livros, amigos e professores, então nisso já está no ambiente correto.

Norma: Há uma citação de Baal HaSulam, o Rav Yehuda Ashlag, no Shamati 21: “quando o homem se ocupa de algum tema e almeja entendê-lo, esse desejo é chamado de oração”. Qual é a conexão entre anseio e a oração?

Rav: Porque no anseio, em que almejamos mas não o obtemos, não o alcançamos, não podemos atingi-lo, aquilo que sonhamos, e portanto, o que se segue é que o anseio não é real. Mas se estudarmos a Sabedoria da Cabalá corretamente percebemos que para isso precisamos de amigos, e todos juntos, suponhamos, dez amigos conectados uns aos outros e desejamos por alguma qualidade espiritual, então entre nós, podemos organizar-nos de tal forma que, sim, precisamos, queremos e somos capazes, e então acontece.

Norma: Quando elevamos esta oração ao Criador, sente-se que a ação em si mesma é a recompensa. Por outro lado, se recebo uma a resposta do Criador mas, não é algo que ansiava, como aceitar esse resultado e como justificá-lo?

Rav: É verdade que não podemos obter o que queríamos, mas se estivermos conectados corretamente, então os nossos desejos em alcançar o Criador, os nossos esforços em pedir ao Criador, pressionam a Força Superior, e então obtemos o que realmente desejamos.

Norma: Para finalizar Dr. Laitman, qual é o seu Anseio? Tem algum em especial?

Rav: Claro que sim, vários tipos de sonhos, vamos assim dizer, meus desejos, e o principal é que gostaria de ver muitas pessoas na Humanidade a ansiar por revelar o Criador na conexão entre si. Que a Humanidade comece a fluir neste estado de “como um homem num só coração” e que os Cabalistas, os grandes Cabalistas, especiais, como Baal HaSulam e Rabash, sejam respeitados, e que guiem toda a Humanidade para o propósito da criação. E gostaria que os meus estudantes fossem a guarda avançada que lidera o caminho e isso é o que desejo a todos. Sucesso!

Norma: Muito obrigada. Terminamos com um Anseio muito profundo que concretize.

Rav: Muito obrigado, tudo do melhor.