O MUNDO - A LIBERDADE
O Mundo - 21 de Junho de 2021 31:51 min
TRANSCRIÇÃO:
Norma: Olá e bem-vindos uma vez mais ao programa O Mundo. Conosco temos o Dr Michael Laitman com quem falaremos acerca da Liberdade. O que é a Liberdade? Em que consiste? E como podemos alcançá-la? Dr. Laitman muito obrigada por estar conosco.
Rav: Feliz por estar com vocês. Vamos em frente!
Norma: O termo ‘Liberdade’ é definido de forma comum como a faculdade, ou a capacidade do ser humano de atuar segundo os seus valores, critérios, razão e vontade, sem nenhuma restrição que não seja a liberdade das outras pessoas. Diz-se que uma pessoa está em liberdade, ou atua em liberdade quando não está em condição de prisioneiro, submetido às ordens dos outros ou sobre coação. O que é liberdade de acordo com a Sabedoria da Cabalá?
Rav: A liberdade de acordo com a Sabedoria da Cabalá é estar acima de todas as forças que governam que controlam uma pessoa em todos os níveis e em todas as direções. Assim que a pessoa deixa de estar sob o controle dessas forças, a pessoa fica livre. Isto é a liberdade. E a Sabedoria da Cabalá ensina uma pessoa como ser livre, no seu desejo. Cada um de nós tem um desejo e este desejo consiste em vários tipos de desejos: grandes, pequenos, em vários níveis, com várias formas, e a Sabedoria da Cabalá ensina-nos como podemos elevar-nos acima desses desejos que despertam e sermos livres deles.
Norma: O filósofo grego Epicuro, diz que o homem é livre quando pode tornar os seus sonhos realidade. Quando é que somos verdadeiramente livres?
Rav: Significa que de acordo com esta definição a pessoa se eleva acima do seu desejo, ou simplesmente tem a capacidade de realizar o seu desejo? Qual das duas?
Norma: Boa pergunta!
Rav: Haaaaa, então!? Essa é a questão! Infelizmente não posso falar sobre isso agora. Talvez em breve seja possível, mas é uma questão. O que significa ser livre? Porque nascemos com um desejo de receber, o que desejamos, desejamos…É como as crianças que agarram tudo o que vêm. E quanto mais crescemos, mais queremos, coisas diferentes e tudo o que desejamos eventualmente desejamos mais do que temos, em quantidade, etc... Esse é o nosso desejo, e não podemos nos ver livres dele. Não podemos sair dele. O desejo de receber, o desejo de receber prazer e satisfazermos as nossas necessidades é nossa vida inteira, é a nossa natureza. E portanto todo o nosso trabalho, se queremos ser livres, se o homem quer ser livre, e ser livre significa uma pessoa que se eleva acima do seu desejo, e se transforma numa pessoa que não deseja nada. Que não quer nada. Mas como é isso de não desejar nada, funciona? De uma forma, ou de outra nós existimos, respiramos, comemos, dormimos, temos famílias, de uma forma, ou outra, temos desejos! O que significa ser livre do nosso desejo? Significa morrer? Porque é isso que está escrito! Os mortos são livres, mas não é uma solução porque não há homem aí. A definição de homem e de liberdade não podem existir juntas desta forma. Então como não estar submetido ao desejo? Como sair dele? Segundo, o que entendemos da natureza é impossível! Existimos sempre em algum tipo de desejo, ou em vários desejos ao mesmo tempo. E portanto, a liberdade dos desejos apenas é possível quando a pessoa morre. Ou então que a pessoa é capaz de se elevar acima do seu desejo. Que temos o desejo de aproveitar, de saber, de fazer, todos os desejos possíveis que podemos ter no mundo, vamos considerá-los um desejo geral, e este desejo existe em todas as pessoas. Por isso, se a pessoa pudesse elevar-se acima deste desejo o que acontece depois? Tal como explica a Sabedoria da Cabalá, a pessoa pode elevar-se acima do nosso desejo, que no geral é chamado de desejo de receber, não importa o que recebe, é chamado assim no geral, receber para si próprio, e então a pessoa pode pensar sobre como mudar o desejo, para um desejo de doar aos outros. Se a pessoa mudar dessa forma o desejo de receber, substituindo-o pelo desejo de doar, então fica livre do desejo de receber e viver para satisfazer os outros, para dar aos outros. Mas é necessário estar sempre no desejo de receber e no desejo de dar aos outros: sem os dois é impossível, sem isso o corpo está morto. É isso! E é por isso que precisamos escolher em que desejo queremos viver. E a Sabedoria da Cabalá explica que, se a pessoa quer viver nas mesmas condições em que se encontra, então que continue! A forma como a pessoa quer viver, no mundo, pode fazê-lo que a pessoa saiba mais que se encontra num estado em que é um escravo do seu desejo. E o que o desejo exige da pessoa, em cada momento, quer a pessoa queira, ou não, é isso que fazemos. E há outra opção, como explica a Sabedoria da Cabalá, em que atraímos a Força Superior que se derrama sobre nós e nos modifica, e gradualmente neutraliza o desejo de receber da pessoa, e em vez dele a pessoa vai querer doar. E ao longo do caminho a pessoa realiza estas ações, e atravessa estes estados que desde o nosso desejo de receber, que queremos receber tudo para nosso benefício, passamos para um estado chamado restrição, tzimtzum, no qual a pessoa faz uma restrição, faz uma restrição no seu desejo de receber e passa a não querer nada exceto as coisas necessárias à sua sobrevivência física, à sobrevivência do corpo, que tem que viver. E assim a pessoa pode elevar-se acima da sua natureza, do desejo inato de receber e adquirir o desejo de doar aos outros. E tal transformação pode acontecer em todas as pessoas, de acordo com a sua decisão, e isto é do que se ocupa a Sabedoria da Cabalá, ajuda-nos a atravessar do desejo de receber, para o desejo de doar.
Norma: Então esta transformação é o que nos faz ser livres?
Rav: Livres do nosso desejo de receber, com o qual nascemos.
Norma: No Shamati número 142, Rav Yehuda Ashlag, Baal Hasulam escreve: “No entanto, fazer a guerra e manter o mitzvá de escolha deve ser num lugar de permissão, porque o ato é apenas uma questão de permissão”. Portanto, mesmo que uma pessoa falhe, o seu pecado não será tão grande. O livre arbítrio e a liberdade são a mesma coisa?
Rav: O livre arbítrio é uma escolha e a liberdade é uma condição, portanto, se uma pessoa deseja e escolhe alcançar um estado em que não existe pressão sobre ele, nenhuma força que faça coerção sobre ele, porque ele quer ser livre, então esta é uma ação de escolha. E após uma pessoa alcançar essa escolha torna-se livre então pode escolher como pode viver, em que forma de desejo, em que tipo de desejo e qual a direção do desejo.
Norma: Em que consiste a nossa liberdade de escolha?
Rav: A nossa liberdade de escolha consiste no nosso desejo, que quer receber prazer, que quer preencher-se com vários prazeres, e a Força Superior que controla o nosso desejo e precisamos de entrar em contato com a Força Superior, para que ela modifique o nosso desejo, tanto para que o desejo mude, como também para que a sua forma de satisfação mude. Nós vivemos dentro do desejo.
Norma: Baal HaSulam, no final do seu artigo “A Liberdade” explica o que aparece na Mishná, “Nenhum homem é livre a não ser que se dedique ao estudo da Torá”. “Dedicar-se ao estudo da Torá”, o que significa isto?
Rav: Normalmente não sabemos o que é a Torá, usualmente as pessoas neste mundo não sabem. Elas pensam que é um livro de regras que… isto é do artigo “A Liberdade”, as pessoas não sabem o que está lá escrito. A Sabedoria da Cabalá ensina-nos que a Torá nos explica de que forma gradual, através de que ações, através de que preparações podemos alcançar um estado em que somos livres do nosso desejo de receber, e então, adquirimos liberdade.
Norma: Então como se alcança a liberdade através do estudo da Torá?
Rav: Ao estudar Torá, percebemos por um lado o que acontece conosco, e também despertamos uma força especial na natureza, que muda o nosso desejo de um desejo de receber e satisfazer-nos a nós próprios, para um desejo de doar, e preencher os outros.
Norma: Como é que os Cabalistas, que ensinam a interpretação da Torá através do estudo da Sabedoria da Cabalá alcançam a liberdade? Será que eles se sentem completamente livres? Existe tal coisa?
Rav: Sim, mas leva muito tempo, às vezes uma vida inteira. Mas através disso, através do estudo e da implementação do que lá diz, é despertada uma força na natureza, chamada a Força da Doação, e essa Força da Doação atua numa pessoa, e pode ser em qualquer pessoa, não importa: homem, mulher. Mas o principal é que a pessoa queira que aconteça desta forma, e a Sabedoria da Cabalá ensina como chegar gradualmente ao pedido para que assim aconteça. E é isso! E o que se segue é que, através da sua atitude para com a natureza, a pessoa derrama sobre ela a Força da Doação, e a Força da Doação dá a uma pessoa a capacidade de se elevar acima do seu ego, acima do seu desejo de receber, e tornar-se um doador, doar ao contrfário de receber.
Norma: Pergunto porque sabemos da história do Profeta Jonas, a quem foi ordenado que levasse uma mensagem do Criador ao povo de Nínive, portanto os Cabalistas têm um papel que é o de levar a humanidade até à correção. Existe liberdade nesse papel, e de que forma?
Rav: Este não é um assunto simples. Cada pessoa, a cada momento, faz o que a Força Superior lhe ordena, e como se reveste nela, e para além disso acontecer com toda a gente, uma pessoa que deseje elevar-se acima da sua vida, acima de ser controlado pela Força Superior, pode saber e compreender que com a ajuda da Sabedoria da Cabalá pode virar-se para a Força Superior e pedir, exigir o futuro. O que a pessoa prefere ter, ao contrário do que a Força Superior implementa nele. Mas acontece apenas na condição de que a pessoa quer ser semelhante à Força Superior, que quer ser um doador, que quer sentir amor para com os outros, etc. Isto são coisas difíceis, que não são simples, e que, se a pessoa se desenvolver, e se quiser mesmo, então o seu pedido à Força Superior acontece e a Força Superior atua sobre a pessoa e ajuda-o. A Força Superior explica-lhe, permite-lhe esse desejo, o seu pedido e é assim que a pessoa muda.
Norma: Desta forma a pessoa não sente um fardo ou uma coerção desde acima?
Rav: Não. A pessoa sai deste fardo, de que a Força Superior o governa. Pelo contrário, através do seu pedido, a pessoa leva a Força Superior a acompanhá-lo porque a pessoa quer ser semelhante à Força Superior, quer ser um doador. A pessoa subjuga a Força Superior, e sai desta vida em que apenas leva a cabo a concretização do seu desejo, em que quer sempre algo, mas está todo o tempo a pensar como pode dar, dar, dar e fazer bem aos outros. Ao invés de querer receber para benefício próprio, a pessoa quer ser o doador, a pessoa quer doar a todos, aos outros, à vida.
Norma: Isto é exatamente ao que me refiro, que esta é a condição através da qual somos capazes de modificar a intenção da ação, de recepção para doação.
Rav: Sim.
Norma: E como podemos interpretar as palavras de Baal HaSulam no artigo “Paz no mundo” onde ele diz: “Acontece que o coletivo e a indivíduo são o mesmo e o indivíduo não é prejudicado com a sua submissão ao coletivo porque a liberdade do coletivo e a liberdade do indivíduo são a mesma.” Como pode a liberdade do indivíduo e da sociedade serem as mesmas?
Rav: Normalmente a pessoa submete-se ao coletivo. Nascemos num certo ambiente e ele influencia-nos e somos ensinados, e já saímos como algo que sai do forno, e é assim que continuamos, a viver a nossa vida. A forma como vemos as coisas, como recebemos as coisas, lemos muitos livros, vimos muitos filmes, e portanto, não temos liberdade de escolha. Nenhum de nós. Vemos nas pessoas que passam na rua, que enchem os lugares, que trabalham nos diferentes lugares, ninguém tem liberdade de escolha, mas todos cumprem o papel que a Força Superior determina para eles a cada momento. A questão é: como é que mudamos estas coisas então? Para pessoas especiais que são capazes de sair do controle do programa da criação, que conseguem sair do controle do ego, então é-lhes dada uma oportunidade na vida em que eles chegam a certos estados, a certas pessoas, onde podem aprender como alcançar liberdade de escolha. Não é oferecido a muitas pessoas. Na realidade apenas a uma minoria em toda a humanidade. E no passado ainda havia menos. Portanto, vemos estas pessoas aqui e ali, são chamados de Cabalistas, que desde acima, receberam forças de acordo com a sua escolha, de acordo com o seu trabalho, que estas forças os ajudam a elevar-se acima das Forças da Natureza, que obrigam a todos a viver uma vida comum e permite-lhes viver uma vida diferente, que é livre, que é livre do desejo, do seu desejo egoísta de receber prazer. E portanto, quem o desejar, precisa de se dirigir a essas pessoas e começar a estudar e ouvir e estudar como a pessoa se pode organizar para sair do controle do desejo que existe na natureza, que força uma pessoa a fazer certas coisas, a querer e desejar, e que a pessoa o deseje mudar, e viva de uma forma que seja livre dessa força subjugadora na natureza chamada de ego geral. E então esse desejo eleva-se numa pessoa acima de todos os seus desejos egoístas e eleva a pessoa acima do ego, e o homem é então chamado livre. E na medida em que a pessoa se eleva, começa a trabalhar de uma forma, para com ele e para com os outros, de uma forma em que ele ama todo o mundo, em que ele se quer ligar a todo o mundo, ele inverte-se completamente ao que era antes 180 graus: ao contrário de receber, doar, ao invés de ódio, amor e assim, a pessoa é chamada de Cabalista.
Norma: O Dr. sente-se completamente livre?
Rav: Talvez um dia falaremos sobre isso.
Norma: Muito bem. Em todo o mundo a liberdade é um direito humano fundamental, e respeitá-la é uma base para avanço e paz. A liberdade é mesmo a base para a paz?
Rav: A liberdade falada à volta do mundo é uma liberdade para viver esta vida como as pessoas querem viver. Na Sabedoria da Cabalá isso não é considerado liberdade. Muito pelo contrário, é chamado o estado do “Anjo da Morte”, portanto, o oposto da verdadeira liberdade. Porque implementamos as Ordens da Natureza que acordam em nós, e devemos implementá-las e portanto não vemos liberdade nisso. Mas, seja livre, ou por forma a sermos livres, precisamos de nos elevar acima do nosso desejo de receber, e ser, ou viver realmente desligados desse desejo. E dessa forma, em que nos elevamos, em que transcendemos, então somos mesmo livres.
Norma: E por que é que o que o mundo faz é o oposto daquilo que o Dr. está a descrever? Como?
Rav: Porque o mundo pensa que concretizar o desejo egoísta que desperta nas pessoas, é ser livre. Que ninguém se atravesse no caminho da pessoa para levar a cabo o que deseja. E a Sabedoria da Cabalá diz que mesmo o que queremos fazer, realizar, também não é ser livre. De onde recebemos estes desejos? Não sabemos! Esses desejos despertam em nós, e forçam-nos a implementá-los, e portanto não somos livres. Muito pelo contrário, todo o tempo somos escravos do desejo egoísta geral que existe na natureza.
Norma: Para concluir então, como pode a sociedade alcançar a liberdade de acordo com o que a Sabedoria da Cabalá recomenda. Toda a gente no geral?
Rav: Chegará, e a cena final do desenvolvimento humano chegará, e todo o mundo vai subir no palco, e vamos desempenhar esse papel juntos, porque todo o mundo vai estar farto de viver a sua vida de uma forma que a cada momento implementamos, e concretizamos as ordens mesquinhas da natureza que nos controlam completamente e estão a desperdiçar a nossa vida inteira, enchendo-nos com lixo e disparate. A humanidade vai perceber que não podemos continuar desta forma, mas temos que nos elevar acima do nosso desejo egoísta e assim vamos manter a verdadeira liberdade.
Norma: E quando vai acontecer esta cena final? Por que por agora o que vemos são guerras, conflitos, problemas?
Rav: Em breve, em breve. Já estamos num estado em que queremos aproximar-nos disso. Obrigado a você.
Norma: Dr. Laitman, muito obrigada por tudo. Até a próxima.
Rav: Obrigado!