Estados Espirituais
O estilhaçamento dos vasos
23 de Julho de 2021 25:40 min
Transcrição:
Moshe: Olá a todos, olá Dr. Laitman!
Rav: Olá!
Moshe: Hoje vamos falar de estados espirituais, nomeadamente sobre o estilhaçamento dos vasos. Vamos tentar falar sobre o que é este estilhaçamento, e como os nossos desejos estão estilhaçados e já que falamos de estados espirituais que não estão relacionados com o tempo, vamos tentar explorar este tópico. O que é o estilhaçamento dos vasos, ou este termo “Kelim”, vasos, que não vamos traduzir, e que significa desejos?
Rav: Uma pessoa tem desejos, muitos desejos, e o principal, que contém todos os outros, é o desejo de benefício próprio, que é o desejo principal numa pessoa e é o principal. Ao primeiro, estes desejos, existem numa pessoa, em diferentes formas, e cada pessoa utiliza-os de várias formas e nasce com eles. São absolutamente egoístas. Vemos que desde a mais tenra idade até aos mais velhos, as crianças choram para preencher os seus desejos. Os adultos já conseguem entender que precisam fazer certas coisas e apenas podem preencher os seus desejos à custa dos outros e, os outros podem não estar em concordância com eles. E por isso existe conflito, porque queremos preencher os nossos desejos, mas o mundo circundante, as pessoas, tudo o que nos conecta, discorda com isto. E por esta razão, os desejos de uma pessoa, para se preencher, para se deleitar no seu ego, nos seus desejos, encontra sempre algum tipo de limitação ou algum tipo de crítica ou rejeição do ponto de vista dos outros que o rodeiam. Portanto, tentamos saber como podemos sentir deleite, sem encontrar esta rejeição dos outros.
Moshe: Então, um desejo preenchido é um que não foi estilhaçado?
Rav: Os desejos podem ser de tal forma que apenas nos preenchemos com benefício próprio e estes são os desejos egoístas em ação. E estes existem em todas as pessoas. Nem sempre somos capazes de os concretizar e portanto há sofrimento e lutas, porque a pessoa não os consegue preencher. E para além dos desejos com benefício próprio, há também os desejos que emergem em ação de doação, em dar. Por exemplo, se amamos alguém, a nossa ação externa é de doação e não de recepção. E através disto, também nos preenchemos, porque damos presentes aqueles que amamos. Ainda assim, não é doação, mas recepção, porque damos estes presentes para nós mesmos e não para o outro. Dar ao outro incondicionalmente, sem preencher o nosso próprio egoísmo, é impossível. No nosso mundo isso é impossível. Portanto, a Sabedoria da Cabalá existe para nos ensinar como podemos realizar os outros de forma plena. E aqui existem todo o tipo de discernimentos, critérios, é uma ciência complexa. Eu diria da seguinte forma, os desejos para benefício próprio estão divididos neste espectro de desejo para benefício próprio, depois, desejo de beneficiar o outro, desejo de doar.
Moshe: Pode falar-nos deste estado, deste estado de estilhaçamento?
Rav: Quando, num humano, emerge um desejo de preencher outra pessoa, este tipo de desejo não é suportado por ninguém, nem encorajado, porque a pessoa não está pensando nela própria, mas a fazê-lo pelo benefício dos outros. Então este tipo de desejo completo se, de repente emerge em forma de recepção própria, ao invés de ser para receber em benefício do outro, este tipo de inversão de uma intenção, isto é chamado de estilhaçamento.
Moshe: Então, este processo em que a pessoa pode preencher-se para benefício próprio e desejo egoísta é um desejo estilhaçado?
Rav: Sim.
Moshe: Mas, o objetivo deste estilhaçamento está explicado no mundo espiritual, que há a qualidade do Criador e a qualidade da criação.
Rav: O estilhaçamento, tal como tentei explicar, ocorreu quando o desejo estava na intenção de recepção pelo benefício do outro e, de repente, inverteu em recepção para benefício próprio, e isto é chamado de descenso ou estilhaçamento do desejo. E para corrigir precisamos obter esta Força Superior que pode mudar esta intenção de intenção para benefício próprio, para intenção para benefício dos outros.
Moshe: Então, quando é que isto aconteceu, falando de forma temporal?
Rav: Isto aconteceu antes da criação, antes de aparecer o humano, antes do surgimento da humanidade. Havia o desejo de receber para benefício dos outros, que passou por este estilhaçamento porque passou a receber para seu próprio benefício.
Moshe: Então, a pessoa deve descobrir tudo isto, não estamos a estudar história aqui.
Rav: Não há história, tudo existe no desejo.
Moshe: Então, não existe no eixo do tempo. Acontece tudo dentro de nós de alguma forma?
Rav: Sim, é todo o nosso mundo.
Moshe: Como se fosse nos genes?
Rav: Sim, sim. Que numa pessoa existe a capacidade de receber pelo benefício do outro.
Moshe: Podemos compreender este estado e estudá-lo e mudá-lo para recepção em benefício dos outros. Qual é o truque: como receber mas não para benefício próprio?
Rav: Que usamos todas as nossas capacidades para preencher os outros e quando todos agem da mesma forma, preenchem-se uns aos outros e estão completamente interdependentes nesta ação única, neste desejo comum e dentro dele, a Força Superior é revelada, e cada pessoa obtém a Força Superior, alcança este nível e existe neste nível de forma eterna.
Moshe: Escutei isto, mas parece egoísta, então queremos alcançar este nível. Mas, como o fazemos sem receber para benefício próprio?
Rav: Somos controlados pela Força Superior e neste estado em que estamos completamente conectados, quando estamos todos em conexão com todos os outros e recebemos apenas pelo benefício dos outros e do Criador, o nosso propósito existe para a nossa correção.
Moshe: Então, o Criador e a criação, em algum momento a criação apenas recebia e depois houve uma espécie de mistura entre desejos egoístas e as qualidades altruístas do Criador e aqui acontece o estilhaçamento?
Rav: Sim. Porque estava a receber para benefício próprio, a forma de recepção em que o desejo de receber, recebe para benefício próprio.
Moshe: No nosso mundo vemos que as pessoas não só querem receber para elas próprias, mas também podem dar aos outros, e isto é a razão para existir algum tipo de conexão, caso contrário não existe qualquer tipo de conexão. Seriam como crianças que não se sentem umas às outras.
Rav: Sim.
Moshe: A próxima pergunta sobre o estilhaçamento dos vasos, ou da queda de Adão são linguagens diferentes. Há a linguagem da Torá, e outras linguagens.
Rav: Bem, na verdade é muito simples. Se temos um desejo apenas para benefício próprio, se este desejo é direcionado apenas para nós mesmos, então é contra os outros, e isso é chamado de estilhaçamento.
Moshe: E então quanto à queda de Adão?
Rav: Isto é exatamente o que estamos falando. Estes desejos são protótipos de uma pessoa, isto é, praticamente são desejos que ainda não estão revestidos no nosso corpo físico. E estes desejos eram apenas em forma de doação e, como resultado destas ações, transformaram-se em desejos em forma de recepção e esta é a queda de Adão.
Moshe:(12:32) Então Adão significa este sistema, este sistema geral de desejo?
Rav: Sim. Era um desejo único e unido, e de repente começa a sentir-se como se tivesse muitos elementos, e esse é o estilhaçamento, porque começou a receber para si mesmo. E este é o pecado original.
Moshe: E como é que isso está relacionado com a maçã? A maçã caiu da árvore?
Rav: Nada.
Moshe: É uma parte da história!
Rav: É para que sentíssemos um desejo básico para benefício próprio.
Moshe Muito bem, vamos ver isto mais detalhadamente depois. Então a queda de Adão, o estilhaçamento dos vasos é como que uma linguagem mais cabalística?
Rav: Sim.
Moshe: Podemos então dizer que é a mesma coisa, mas em diferentes linguagens. Os Cabalistas estudaram a natureza, todos estes termos para que a pessoa não tivesse todas estas associações: temos a queda de Adão, a maçã que caiu da árvore, e estas imagens afastam-nos da verdade!
Rav: Ninguém pode acreditar nisso, mas no passado algumas pessoas acreditavam nisso, e talvez algumas acreditem ainda agora acreditem.
Moshe: Mas isto é um código especial, uma linguagem especial?
Rav: Sim. Na verdade os Cabalistas explicam-nos através destas histórias, os acontecimentos mais complexos que tiveram lugar, na Natureza.
Moshe: Muito bem, também escrevem que graças a este estilhaçamento tivemos a capacidade de desenvolver a linha do meio. Então existe esta linha da direita, da esquerda e a linha do meio que a pessoa precisa construir. Então estas linhas da esquerda e da direita possuem um perigo pois existe uma espécie de curto circuito quando se conectam é por isso que é necessária a linha do meio, para criar uma espécie de equilíbrio. Não há Tela entre elas, e então acontece o estilhaçamento dos vasos, certo?
Rav: Tal como no nosso mundo, quando existe uma força de recepção, uma força de doação, e elas entram em conexão, não vemos que existe alguma coisa perigosa e assustadora. Mas através das leis espirituais é proibido receber para si próprio, e este tipo de recepção para o próprio acontece neste curto circuíto entre o mais e o menos entre o positivo e negativo. E dentro disto, o sistema arde.
Moshe: Então o que pode ser esta linha do meio no ser humano?
Rav: A linha do meio numa pessoa é a linha do meio. Se a pessoa colocasse a linha da direita e a da esquerda em contacto, para obter o curto circuito queimava o que restava da alma.
Moshe: Então, ao olharmos para a sociedade em geral, as pessoas vão para a esquerda, para a direita, ideias de esquerda, de direita, então começam a alcançar um conflito. Porque se não existir algo no meio, vai existir sempre conflito. E portanto estas duas linhas entram em curto circuíto uma com a outra. Como deveria ser na sociedade? Falamos disto dentro da pessoa, mas e quanto à sociedade?
Rav: No geral deveriam existir leis que educassem uma pessoa de tal forma que a pessoa pensasse acerca da sociedade e não apenas sobre si mesmo. E então seríamos muito mais sagrados e muito mais benéficos. E sobre isso receberia algum tipo de recompensa. E se as pessoas não agissem em benefício da sociedade, então receberiam uma espécie de castigo. E esta seria a sociedade correta na qual as pessoas deveriam crescer.
Moshe: Então esta linha do meio numa pessoa é uma espécie de Tela, de forma não egoísta, para isolar a força egoísta de recepção para benefício próprio? Separa a força da doação da força da recepção. Então esta Tela deve separar as duas, certo?
Rav: Sim.
Moshe: Entendi bem que o ódio está relacionado com o estilhaçamento no sentido em que nós queremos usar uns aos outros, queremos ser bem sucedidos à custa dos outros.
Rav: Sim.
Moshe Eles também escrevem que entre estes Vasos (Kelim) interiores e exteriores e que entre eles existe esta fronteira de estilhaçamento. E que graças a isso (aos Kelim internos e externos) podemos sentir o que está no nosso exterior (pessoas, sociedade) e dentro de nós, e os desejos que queremos sempre preencher dentro de nós, e os desejos externos que apenas queremos usar para nosso benefício. Portanto vemos este tipo de imagem, e isto acontece também como resultado do estilhaçamento dos Vasos?
Rav: Sim. Quando o desejo estilhaçou em muitos Vasos, então sim, aconteceu o paradigma: “o que é meu é meu”, pertence à pessoa, e então ficou dividido em dois, o que é da pessoa e o que não é, e o egoísmo começou a desenvolver entre algo que é nosso e algo que não pertence à pessoa, e isso aconteceu graças ao estilhaçamento, e também o desejo de receber o que não pertence à pessoa, esse desejo egoísta.
Moshe: Então temos este desejos e as forças para nos preenchermos, e o que está no exterior, que vemos como não nos pertencendo, questionamos o facto de não ser a nossa obrigação fazer algo com o que acontece porque não nos pertence. Só nos conectamos com o que está fora se o pudermos usar para o nosso benefício. Aqui está a pergunta: mudar a nossa atitude para com o que está no nosso exterior então recebemos a possibilidade…
Rav: De nos tornarmos em Adão.
Moshe: E qual é a vantagem disso?
Rav: Vai começar a sentir todo o Mundo como sendo parte de você, e você como sendo parte do Mundo. E então não vai ter esta divisão entre o que é seu e o que não é seu, entre você e os outros. Vai começar a sentir-se em absoluta conexão com toda a criação.
Moshe: Está escrito que se nós pudermos relacionar com estes Kelim exteriores que se manifestam no nosso mundo como Natureza, pessoas, animais e estes desejos internos, que estamos sempre prontos para preencher. E no meio o Criador. Que, se mudarmos a nossa atitude, o Criador aparece. O que significa isto?
Rav: Criador é a força geral do amor, preenchimento, doação, que preenche todo o mundo, toda a Criação.
Moshe: E qual é a razão pela qual surge assim? Se começarmos a nos relacionarmos com os vasos exteriores da mesma forma como nos relacionarmos com os nossos vasos internos? Então o Criador vai ser revelado.
Rav: Vai começar a sentir esta força geral que controla e opera todo o Mundo, e esta força é chamada de Criador.
Moshe: Num outro artigo o Dr. escreve que ao mesmo tempo eu começamos a sentir estes vasos exteriores, começamos a sentir que a nossa alma se encontra neles, e o que sentimos neste momento, estes pequenos desejos que preenchemos diariamente são apenas um pequeno ponto.
Rav: Sim, tudo o que recebemos para nós mesmos é um pequeno ponto egoísta, e tudo o que recebemos em doação, isso é a alma.
Moshe: É correto dizer que os Cabalistas chamam a este princípio “ame o seu próximo como a você mesmo”? Que se nos relacionarmos com os outros como nos relacionamos connosco próprios, é disto que fala este princípio?
Rav: Sim.
Moshe: Ok, última pergunta. Tudo está claro, mas como é que tudo isto está relacionado com o Criador? Como é que o Criador vai ser revelado apenas nessa altura?
Rav: Porque é a força geral do amor e doação, e preenche toda a Criação, e aparece apenas quando algo está em semelhança com essa força.
Moshe: Então, se mostrarmos que queremos doar, que estamos prontos para receber as qualidades do Criador, como está escrito no Zohar, que todo o Mundo está dentro de nós, então seriamos capazes de emergir deste estado.
Rav: Então a quem daria todo o mundo dentro de você?
Moshe: O Mundo à nossa volta existe como se fosse um laboratório, e é tudo graças ao estilhaçamento?
Rav: Sim, graças ao estilhaçamento do Adão egoísta, e graças a ele, começamos a compreender que existe uma força de recepção e uma força de doação, e graças à percepção do que o preenchia antes, que o Criador desapareceu do seu Mundo, isto é o que chamamos de pecado, a queda de Adão. Então, para que a pessoa tenha a capacidade de agir em doação de forma independente. E destes dois opostos, construir o Criador dentro dele mesmo.
Moshe: Bem, é como se não fosse assim tão complicado, são coisas simples, e se todas as pessoas estudassem, isto estaria acessível a todos.
Rav: Todos os que estudarem isto, porque está acessível a todos, vão ser capazes de o concretizar.
Moshe: Então não é um privilégio de um grupo específico?
Rav: Não, para toda a gente, tal como está escrito, todos vão conhecer-me do mais pequeno ao maior.
Moshe: Muito obrigada, este foi o nosso programa Estados Espirituais. Boa sorte.
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