O MUNDO - O DINHEIRO
O Mundo - O1 de Dezembro de 2022 28:01 min
Norma: Olá, obrigada por se juntar a nós no programa O Mundo com o Dr. Michael Laitman e hoje vamos falar de um tema muito interessante: desta vez, “O Dinheiro''. Olá Dr. Laitman. Muito Obrigada por estar conosco mais uma vez!
Rav: Olá, olá. Feliz por estar com vocês. Estou pronto.
Norma: Muito obrigada. Para falar sobre este tema vamos dar uma pequena introdução. É sabido que o desenvolvimento dos desejos humanos começou pelos desejos de comida, sexo e família, depois vieram os desejos por dinheiro, honra e conhecimento. Hoje gostaríamos de nos focar no desejo por dinheiro. O que é o dinheiro, de acordo com a Sabedoria da Cabalá?
Rav: Dinheiro, (kesef), advém da palavra “kisufa” que significa “cobrir com”, o que significa que pode cobrir praticamente todos os desejos do homem, na sua capacidade de os realizar. Portanto a cobertura, a realização que o homem pode comprar relativamente a todos os seus desejos, chama-se “Kesef”, dinheiro.
Norma: Quando se diz que “cobre algo” o que isso significa de acordo com a Sabedoria da Cabalá? O que é que não pode ser coberto pelo dinheiro, ou com dinheiro?
Rav: Penso que é possível cobrir praticamente tudo com dinheiro. Cobrir tudo com dinheiro. Mesmo que de acordo com a escala, tenhamos comida, sexo e família que são as 3 primeiras escalas, e depois, dinheiro, honra e conhecimento. Por isso dinheiro está em quarto lugar, mas ainda assim, na troca de dinheiro, podemos ambos comprar comida, sexo, família, e certamente honra, respeito, conhecimento. Hoje, o dinheiro é o equivalente e ele cobre tudo.
Norma: Podemos então dizer, ou melhor dizendo: por que o dinheiro não ocupa o primeiro lugar na escala, na escala de prioridades? Por que de acordo com o que falamos, pode cobrir todos os outros desejos…
Rav: Não, o dinheiro pode cobrir todos os desejos do homem, mas ele não pode comer dinheiro, não pode ter saúde em troca do dinheiro… bem, não cobre exatamente tudo. Mas ainda assim, dinheiro é poder, o poder que existe nele pode realmente curar muitas coisas. Pode haver um remédio, cobertura, por isso se chama “kesef”, da palavra “cobrir” muitos problemas.
Norma: Sabemos que cada desejo que desperta numa pessoa possui uma certa razão. Qual é a significância do dinheiro no desenvolvimento do homem?
Rav: Vemos que quanto mais a humanidade se desenvolve, quanto mais evolui, o sistema econômico e monetário, em diferentes formas e estilos, é algo que precisamos, temos que dar a cada coisa que fazemos uma espécie de equivalência de esforços para obtermos isso mesmo, e isso é medido em dinheiro. Dinheiro, “kesef”, advém da palavra “lechasot” “cobrir” significando que podemos cobrir, compensar, por algum tipo de esforço para o alcançar.
Norma: Popularmente diz-se “um homem vale pelo que possui”. Porque é que o dinheiro se tornou a medida através da qual se mede o valor das pessoas, e não outros critérios como ter um bom coração, ser generoso, por exemplo?
Rav: Porque podemos comprar tudo com dinheiro, estamos ilimitados. Se tivermos dinheiro, o quer que tenhamos, podemos construir um exército, um país, casas, famílias, tudo. Em troca de dinheiro podemos comprar tudo. Foi sempre assim, desde o início da civilização humana, mas não na mesma medida que temos agora. E vai continuar assim também, porque não temos equivalente para cada uma das coisas que o homem faz, à exceção de dinheiro.
Norma: Por que diz que vai ser pior ainda?
Rav: Porque não importa o que dizemos, podemos sempre convertê-lo em “quanto é que custa”?
Norma: Qual deveria então ser o critério para medir o valor verdadeiro de uma pessoa,sem o valor do dinheiro?
Rav: Sem o dinheiro, então não temos nada. Não temos nada com o qual substituir o dinheiro. Apenas uma coisa, da qual ainda estamos longe, que é doação e amor, mas ainda está longe de nós.
Norma: Ou seja: quer dizer que devem inverter-se os valores? Inverter os valores que hoje nos governam?.
Rav: Sim Não podemos substituir dinheiro por amor. Quer dizer, há casos assim, porque podemos aproximarmo-nos de uma mulher com o seu bebé nos braços e oferecer-lhe dinheiro pelo seu bebé, e ela não vai concordar. Na maior parte dos casos ela não concorda. Ou seja, da parte da natureza, aqui, já há um limite à medida em que o dinheiro pode influenciar uma pessoa.
Norma: Como chegamos então a essa convicção onde os valores pelos quais vivemos, estão todos errados? Como podemos nos focar no que é realmente importante?
Rav: Enquanto valorizarmos mais o dinheiro do que qualquer outra coisa na vida, e ele se torne o equivalente de todo o nosso esforço, será difícil para nós focarmo-nos noutra coisa qualquer e vermos a nossa vida em algum outro tipo de perspectiva ou medida.
Norma: E qual é a relação entre o ego e o dinheiro?
Rav: O ego na realidade não está relacionado diretamente com o dinheiro. Se quisermos trabalhar com o nosso ego, alcançaremos o dinheiro muito rapidamente porque através dele podemos pagar, adquirir, comprar, mas não há ligação direta entre eles. Penso que chegou o tempo de gradualmente sentirmos que não há ponto em nos vendermos em troca de dinheiro. Que não vale a pena. Há coisas mais preciosas que o dinheiro.
Norma: Com o desenvolvimento do ego na humanidade, o dinheiro tornou-se mais significativo ou menos significativo? Porque chegamos a um ponto, em que vemos que o desenvolvimento do ego já não nos traz satisfação. Portanto, qual é a conexão do desenvolvimento do ego na humanidade e o desenvolvimento da importância do dinheiro?
Rav: Espero que as pessoas comecem a entender que há um valor mais elevado que o dinheiro, que é o valor da sensação interna, da realização interna do significado da vida. E não podemos pagar isso com dinheiro. E portanto as pessoas gradualmente estão dando menos importância à sua relação com o dinheiro, porque perante elas há algo maior, mais importante, que não podem alcançar com o dinheiro.
Norma: Nesse caso qual é a relação com o dinheiro e a busca pela espiritualidade?
Rav: É exatamente isso. A não ser que a pessoa alcance o significado da vida. Suponhamos que nos encontramos no meio da vida, já temos 40 anos atrás de nós, e 30 ou 40 anos à nossa frente e o quê? O que vai acontecer a seguir? Se é assim que olhamos para a vida, então já entendemos que não podemos comprar mais alguns anos com dinheiro, mais uma dúzia de anos com dinheiro ou mais conhecimento sobre o significado da vida. Portanto, o que vai acontecer, eventualmente é que vamos morrer, terminar a vida, mas não fazemos ideia qual a razão pela qual vivemos, e o que poderíamos ter alcançado nesta vida. E para quê? Para que serviu tudo isso? O homem está num beco sem saída, em desespero, e o dinheiro não vai ajudar. Será possível pagar para saber qual o segredo da vida? O que fazer? Como podemos ajudar uma pessoa que tem estas questões? É um problema!
Norma: Houve investigações acerca deste tema. Em 2010 os laureados com o Nobel Daniel Kahneman e Angus Deaton da universidade de Princeton, estabeleceram o limite da felicidade em 75.000 dólares por ano, e determinaram que, quando cruzamos este limite, a relação direta entre obter mais dinheiro e mais felicidade desaparece. O ano passado, Matthew Killingsworth da Universidade da Pennsylvania provou que esta teoria estava errada. De acordo com ele, todos os fatores de satisfação cresciam em proporção ao aumento de rendimentos e que não existia tal ponto onde o dinheiro deixava de ser importante. O oposto era verdade, quanto mais temos, mais queremos. O que pensa o sr, sobre essas duas abordagens?
Rav: Não penso que uma pessoa que pense acerca do significado da vida, do propósito da vida, do propósito do universo, deste tipo de questões globais, interessa-lhe o que se passa aqui, neste espaço à nossa frente. Uma pessoa que pense estar interessada nestas coisas não pensa em ter mais ou menos dólares, mas simplesmente num estado onde o homem não possa medir quantos dólares ou algum outro equivalente que sinta que lhe falte. Não penso que seja assim. Penso que todas estas questões não estão relacionadas com dinheiro. Mas estão relacionadas com a compreensão do significado da vida, com pesquisas e descobertas de qual é o significado da vida, a pessoa é mais rica. A pessoa é mais feliz. A pessoa entende melhor a natureza, o poder da natureza e agarra-se a ele.
Norma: O que diz a Sabedoria da Cabalá sobre a relação entre o dinheiro e a felicidade?
Rav: Não penso que exista uma relação entre a felicidade e o dinheiro. Deve existir alguma forma de compensação, porque o homem vive num corpo, que é animal e portanto precisa de comida, sexo, família, precisa destas coisas, mas não é que ele viva para essas coisas. E portanto, não me parece que o dinheiro possa substituir a vida inteira de uma pessoa.
Norma: Que importância devemos dar ao dinheiro nesta vida?
Rav: Que ele chegue para cobrir o que precisamos para nossa existência. Que somos como somos: vivemos nos níveis inanimado, vegetativo e animado, que são os componentes do nosso corpo e precisamos permitir ao nosso corpo existir, e então, alcançamos um estado onde podemos desenvolver o nível falante em nós, e isto já é uma coisa elevada, exaltada e única que possuímos, e que podemos desenvolver em nós. Portanto, vamos esperar que sejamos bem sucedidos.
Norma: Então porque não nos ensinam na escola como administrar o nosso dinheiro, se é assim tão importante para a vida.
Rav: Não nos é dada a atitude correta para com o dinheiro e no geral, nem os nossos Pais ou educadores pensam nisso, e não sei, não posso dizer. O que podemos explicar a uma criança? Como guardar dinheiro para que possa comprar gelados? Não podemos compreendê-lo. Parece-me que os nossos professores também não compreendem o que nos devem ensinar relativamente a isto.
Norma: Como é que os Cabalistas se relacionam com poupanças, como mencionou antes, que é algo que precisamos levar em consideração?
Rav: Os Cabalistas dizem que o homem precisa poupar; precisa ter algum dinheiro poupado, de forma a não ser um fardo para os seus familiares ou vizinhos, se algo lhe acontecer. Essa é a razão. Não é que precise poupar muito, mas apenas para a sua segurança, se algo acontecer, apenas para que não seja um fardo para os familiares e vizinhos. Portanto precisa poupar e ter um pouco de dinheiro à parte. Isso é o que diz e ensina, a Cabalá.
Norma: O que a Sabedoria da Cabalá diz acerca da porcentagem de ganhos que devemos colocar à parte numa poupança, para não sermos como um fardo?
Rav: Isto está relacionado com o ``Maaser", o décimo, e que a pessoa precisa poupar 10% do que ganha, para que seja colocado numa poupança.
Norma: E, no futuro, como o sr pensa que vai ser a atitude da humanidade em relação ao dinheiro?
Rav: Penso que a humanidade vai perceber que precisamos tomar conta uns dos outros. Criar fundos para que qualquer um possa usar em tempo de necessidade, e então, ninguém vai precisar, ou ter medo que vá ter tempos tão difíceis; não terá medo destes tempos difíceis.
Norma: E para terminar: o sr visitou muitas vezes a América Latina e viu a alegria que caracteriza as pessoas lá. Como explica, que um continente em que as pessoas lidam com situações difíceis, em que às vezes nem possuem meios para suprir as suas necessidades mais básicas,Vemos que ainda assim, eles têm uma visão muito otimista para com a vida,como não vemos na União Europeia, ou no EUA que têm problemas como depressão ou suicídio.
Rav: É o caráter dos Sul Americanos. Eu compreendo e gosto, e é realmente bom que seja esta a abordagem que eles possuem da vida. Mesmo que não tenham estrutura econômica, sabem como ser felizes com a vida modesta que vivem. Respeito-os por isso, e este caráter é muito bom.
Norma: Há ainda uma pergunta adicional sobre este tema do dinheiro: de acordo com o que vemos há uma diferença entre homens e mulheres na sua relação com o dinheiro, e como lidam com ele. Normalmente dizem que as mulheres são melhores a gerir dinheiro, então por que é que os banqueiros do mundo e gestores de Wall Street são majoritariamente homens?
Rav: Não sei o que dizer. Nunca gerenciei o meu dinheiro. Nunca. Sempre coloquei o que ganhava diretamente na conta da minha mulher. E não quero sequer andar com dinheiro no meu bolso. Não me dá nenhum sentimento bom nem confortável, ou sensação de segurança. Por isso não consigo dizer-lhe. Parece-me que se deixássemos as mulheres andar com o nosso dinheiro, o mundo seria mais bem organizado.
Norma: E qual a razão disso?
Rav: Porque a mulher é boa a manter a casa, a cozinha, o apartamento, a família, a compreender o que cada um precisa, e penso que se as mulheres controlassem o estado financeiro das famílias, então ganharíamos mais com isso. Elas são boas com isso.
Norma: Quero perguntar sobre mais uma coisa sobre dinheiro, qual deve ser a nossa conclusão sobre dinheiro?
Rav: Penso que precisamos aprender como elevamos os homens e as mulheres de uma forma que vamos permitir às mulheres gerir as finanças das famílias. Quem avalia as necessidades de uma família são as mulheres, portanto elas precisam ter o dinheiro nas suas mãos.
Norma: Para isso terá que ser uma mulher virtuosa?
Rav: Claro. E serão. Boa sorte para vocês.
Norma: Muito obrigada Dr. Laitman por um programa tão interessante.
Rav: Tudo de melhor para vocês.