O Poder do Livro do Zohar
Capítulo 9
16 de Abril de 2010 29:23min
Transcrição:
*ENTREVISTADOR:*
Boa tarde, queridos amigos.
Hoje continuamos a leitura do Livro do Zohar.
E, como sempre, contamos com a ajuda do professor Michael Laitman para compreender este texto profundo.
Boa tarde, Rav.
*RAV:*
Boa tarde.
Vamos revelar, como de costume.
Onde se revelar, lá lemos.
*ENTREVISTADOR:*
Vamos à leitura:
“Do topo de Seir e Hermon, este é o Monte Sinai, ao qual eles se aproximaram e ao pé do qual se reuniram, como está dito: ficaram ao pé da montanha.
Das tocas de leões, estes são os filhos de Seir, que o Criador convidou para receber a Torá, mas eles não quiseram recebê-la.
Das montanhas dos leopardos, estes são os filhos de Ismael.
Está escrito: o Criador veio do Sinai e brilhou sobre eles desde Seir, e apareceu desde o Monte Parã, e veio do meio de dezenas de milhares de santos.”
O que significa “veio do meio de dezenas de milhares de santos”?
*RAV:*
Quando o Criador desejou dar a Torá a Israel, vieram os exércitos dos anjos superiores e pediram que a Torá fosse dada a eles, e não a Israel.
*ENTREVISTADOR:*
Muito interessante. Podemos seguir?
*RAV:*
Eu li o suficiente.
Aqui é necessário que você toque em tudo o que... Eu posso traduzir tudo isso.
Do topo do Monte Sinai — isso representa quando uma pessoa se eleva ao nível de Biná, a propriedade de completa doação.
Enquanto isso, o povo está embaixo, ou seja, todos os desejos humanos em nós permanecem ao redor da montanha.
Odiamos uns aos outros, odiamos o mundo inteiro, estamos prontos para usar todos e tudo, apenas para nosso próprio benefício.
Isso é estar ao pé do Monte Sinai.
No Monte Sinai sobe apenas nosso ponto no coração — apenas a aspiração ao Criador, chamada de Moisés.
E lá, esse ponto encontra e revela o Criador.
Este é o Monte Sinai.
Além disso, há o Monte Hermon.
Se o Monte Sinai é o monte de Biná, então o Monte Hermon é o monte de Chochmá — sabedoria.
Lá está a misericórdia, a propriedade de doação e amor.
E aqui está o monte da sabedoria.
Por isso é branco, coberto de neve, representando essa propriedade.
E este é o monte de onde não cessa a luz.
Semelhante ao que ocorre quando, do Monte Hermon, descem depois todos os riachos, rios e fluem por toda a terra de Israel.
Esses dois montes, no final, se unem.
A luz de Biná e a luz de Chochmá se revestem na luz de Biná.
É oferecida a Torá de correção às forças chamadas Esaú, Seir.
Essas forças, no entanto, não desejam se corrigir no homem.
De forma alguma.
São absolutamente egoístas e não conseguem imaginar como poderiam se preencher...
sem serem egoístas.
Então, para que eu vivo?
Todo o meu objetivo é existir de maneira próspera e confortável.
Ou seja, estão absolutamente certos.
Eles não sentem nenhuma possibilidade de existir da forma como a Torá lhes é oferecida.
Ou seja, elevar-se acima de si mesmos...
e perder tudo com isso.
*ENTREVISTADOR:*
É isso que o homem sente interiormente?
*RAV:*
Sim.
Está em mim, nas minhas propriedades.
É o meu próximo estado.
Este é Ismael.
Ismael — da palavra “Ishmá-El”, “ouvido pelo Criador”.
Ouvido pelo Criador, que diz que eu também não posso aceitar a Torá como meio de correção.
Porque ela afirma que eu devo usar a mim mesmo acima do meu desejo de me preencher.
De forma alguma consigo fazer isso.
Ou seja, resulta que, dessas duas propriedades principais do homem — fundamentais, básicas e primordiais — de nenhuma forma podemos nos elevar acima delas para alcançar a propriedade espiritual na qual se encontra a força superior, o Criador.
Como podemos lidar com esse problema?
*RAV:*
Elevar o homem ao nível do Criador.
Por isso, o Criador evoca, manifesta, dessas duas propriedades, uma terceira.
Ela surge gradualmente de dentro e é chamada de Israel — diretamente orientada ao Criador.
Essa propriedade, que surge entre Seir e Ismael, entre Esaú e Ismael, chamada Israel, pode, com a ajuda da luz superior, da força superior, elevar-se acima dessas duas propriedades — Seir e Ismael — e tornar-se igual ao Criador.
Quando ela se eleva e se conecta ao Criador, essa propriedade intermediária — não a direita, Ismael, nem a esquerda, Seir — mas a intermediária entre elas, se eleva e se une ao Criador.
Então ela, essa força ou propriedade, pode começar a puxar as forças da direita e da esquerda de seus estados e também elevá-las.
*ENTREVISTADOR:*
Ou seja, não estamos falando agora dos povos de Ismael ou Esaú?
*RAV:*
Exatamente.
Estamos falando sobre o fato de que o homem, dentro de si, revela tais propriedades que são definidas interiormente como Ismael e Esaú.
E essa terceira propriedade, que está acima delas, usa essas duas forças e, assim, elas também são elevadas.
Internamente, é isso que você leu — a elevação ao nível de 10 mil, que é um nível muito elevado.
O nível de absoluta Chochmá no mundo de Atzilut — isso é o que se chama Monte Hermon.
*ENTREVISTADOR:*
Ah, tenho mais uma pergunta.
Digamos que o espectador esteja assistindo pela primeira vez e não entenda muito bem.
Há um monte chamado Chesed, há um monte chamado Chochmá...
E parece bonito — misericórdia soa bonito, sabedoria soa bonito.
Por que chamamos isso de “monte”?
*RAV:*
Chamamos de monte porque vem da palavra hebraica “hirhurim”, que significa “questionamentos”.
Quando surgem dúvidas e problemas no homem, ele quer avançar, mas não sabe como nem consegue.
É aí que aparece este monte diante dele — a ascensão ao monte.
Se ele escolhe isso acima de todos os seus problemas e propriedades egoístas,
acima das suas dúvidas, se ele se eleva acima delas,
então ele recebe ali esta fonte de luz.
*ENTREVISTADOR:*
Por que duas montanhas?
Como explicar a alguém que precisamos tanto da misericórdia quanto da sabedoria?
*RAV:*
Porque temos dois tipos de análise da realidade existente:
em doce ou amargo, e em verdade e mentira.
Doce ou amargo analisamos com a ajuda da luz da misericórdia — bem ou mal.
E verdade e mentira analisamos com a ajuda da luz da sabedoria.
Assim, o homem está sempre entre essas duas análises.
Pode ser doce, mas mentira.
Pode ser amargo, mas verdade.
*ENTREVISTADOR:*
Falamos de doçura e amargor espirituais, certo?
*RAV:*
Claro. Não estamos falando de comida, mas de sensações.
E, portanto, são necessárias essas duas formas de sentir para que possa crescer em nós o que se chama de “homem”.
Porque, partindo do nosso egoísmo, não somos homens — somos apenas animais.
Um pouco mais inteligentes talvez que os macacos em algo...
mas eu diria que muito mais infelizes do que eles.
O princípio animal de crescimento, desenvolvimento, existência está na escolha do doce ao invés do amargo.
E apenas isso.
A verdade e a mentira não têm importância.
A verdade está sempre onde é doce.
E onde é amargo, digo a mim mesmo que isso é mentira.
*ENTREVISTADOR:*
Bem, há a ética...
*RAV:*
Minha moral é toda baseada apenas nisso.
Veja o que acontece no mundo.
Tudo é feito exatamente assim.
O que me é vantajoso, o que me faz bem, o que me é doce — isso é verdade.
E nisso as pessoas entram em conflito, porque cada um deseja sua própria doçura
e tenta convencer o outro de que está certo,
para, de alguma forma, atrair o outro para o seu lado e vencer.
Por isso, a entrada no mundo espiritual consiste em a pessoa elevar-se acima da análise doce-amargo
e começar a analisar a si mesma apenas em relação à verdade e à mentira.
Para aderir completamente à verdade, é preciso se afastar absolutamente da mentira —
mesmo que a mentira pareça doce e a verdade pareça amarga.
Ou seja, você não pode fazer uma análise apenas de verdade e mentira.
A análise correta só acontece quando também incluímos o doce e o amargo.
Somente então.
E resulta que, se dominamos corretamente essas duas análises,
podemos nos construir acima da nossa natureza.
É isso que essas duas montanhas representam.
Ou esses dois enfoques: Ismael e Esaú.
A propriedade de misericórdia, a propriedade de sabedoria, e assim por diante.
*ENTREVISTADOR:*
E depois, quando ocorrer a unificação dessas duas montanhas...
o doce será verdade?
*RAV:*
Verdadeiro.
Eles simplesmente coincidirão.
Sim, esses dois tipos coincidirão completamente.
Mas isso porque você se corrigiu a tal ponto que eles coincidem dentro de você.
Isso reflete o desenvolvimento interior do homem.
*ENTREVISTADOR:*
E que sistema é esse?
Por que a Torá não é oferecida imediatamente?
*RAV:*
Porque não se pode oferecê-la diretamente ao egoísmo.
Como posso oferecê-la a você?
Mesmo que morra, se destrua, deixe de existir — você é absolutamente egoísta.
Eu te ofereço uma maneira de sair do egoísmo.
*ENTREVISTADOR:*
“O que significa sair?”
*RAV:*
Uma pessoa não consegue se imaginar de outra forma.
Ou seja, nosso estado futuro, nossa existência futura, nos parece algo onde devemos sair do egoísmo.
Pensar apenas nos outros.
De forma alguma em nós mesmos.
Eliminar completamente todas as nossas carências individuais.
Ou seja, estar acima delas e pensar apenas...
Mas como isso é possível?
Sobre quem? Sobre o quê?
*ENTREVISTADOR:*
Naturalmente...
Quero continuar.
Professor, há aqui algo tão bonito...
Não acha que às vezes escolhe trechos que parecem tão bonitos, como está dizendo agora,
mas depois, ao relê-los, tudo parece ter passado, e não há nada neles?
E há trechos que parecem totalmente desinteressantes,
e de repente se revelam...
E depois algo se perde.
Por que isso acontece?
*RAV:*
Porque a pessoa muda.
Por isso, de repente vê em um parágrafo o mundo inteiro — onde estou e todo o resto.
Sinto que devo contar isso a outros.
Devo interpretar isso.
E depois tudo desaparece.
*ENTREVISTADOR:*
O que interpretar?
O que contar?
Não há nada aqui.
É apenas uma frase cinzenta...
Bem, vamos tentar agora.
Talvez agora pareça cinza, não sei.
Mas é importante que você a explique.
“E vieram os exércitos dos Anjos Superiores,” após a Torá ter sido oferecida,
“e pediram que a Torá fosse dada a eles, e não a Israel.
E disse-lhes o Criador: ‘Existe morte entre vocês?’
Pois está escrito na Torá: ‘se alguém morrer na tenda.’
Se for encontrado em alguém um pecado mortal, ele será punido com morte.
Há entre vocês pecado, de modo que precisem de julgamentos?
Há entre vocês roubo e barbaridade, sobre o que está escrito: ‘não roubarás?’
Há entre vocês mulheres, sobre o que está escrito: ‘não cometerás adultério?’
Há entre vocês falsidade, sobre o que está escrito: ‘não darás falso testemunho contra o teu próximo?’
Há entre vocês cobiça, sobre o que está escrito: ‘não cobiçarás?’
Por que então vocês pedem a Torá?”
*RAV:*
Por que você precisa, afinal, da força superior,
que é destinada apenas para te elevar acima do teu desejo, acima do teu mundo?
Elevar significa que você não o usará,
que deixará de ser egoísta e se tornará altruísta.
Você quer isso?
Sabe como dizem: você precisa disso?
Assim, na verdade, quando a pessoa passa por um certo período de preparação,
ela começa a perceber que isso é, de fato, a maior propriedade.
Que isso é realmente necessário para ela.
Mas antes desse estado, ela não o vê.
*ENTREVISTADOR:*
E o que significa não ver?
*RAV:*
Ela não sente nenhuma necessidade disso.
Pensa que poderá dominar o mundo e alcançar tudo com a ajuda do seu egoísmo.
Ela não reflete sobre sua eternidade,
que pode alcançar exatamente na propriedade de doação, ao se elevar acima disso.
Ela não reflete sobre isso.
Aqui, deve ocorrer a influência da luz.
A força especial da Kabbalah, a força especial do Livro do Zohar,
está no fato de que, ao nos impactar, aquilo que lemos nos influencia com a luz superior.
Essa luz cria em nós sensações totalmente novas, pensamentos completamente diferentes.
Pensamentos e sensações que antes não tínhamos.
E começo a compreender e a tomar consciência de níveis de existência,
de níveis da criação que antes eu não percebia.
Passo a ter uma abordagem totalmente diferente, valores completamente novos.
De repente, minha relação com o mundo muda completamente,
e eu começo a analisá-lo, avaliá-lo e senti-lo por padrões totalmente diferentes dos que tinha antes.
*ENTREVISTADOR:*
E, de fora, esses padrões parecem muito estranhos.
*RAV:*
Mas é isso que a luz me dá.
Pensamentos completamente diferentes, sentimentos completamente novos — acima do nosso mundo.
E então a pessoa pode parecer estranha para os outros.
Ela prefere amar, doar, dedicar sua vida a valores que, aparentemente, não são deste mundo.
Ela começa a avaliar suas ações de uma forma completamente diferente da maioria das pessoas.
“Por quê? O que você quer ganhar com isso? Qual é o propósito disso?” — podem perguntar de fora.
E ela não consegue entender como podemos continuar presos aos nossos pequenos interesses cotidianos e apenas a eles.
*ENTREVISTADOR:*
No contexto deste texto, existe uma certa contradição.
Dizemos que essa propriedade, chamada de Israel, é, por assim dizer, a propriedade mais elevada.
Ainda assim, o Criador se dirige aos anjos e diz:
“A Torá não é para vocês, pois vocês não possuem essas questões, como ‘não roubarás’, ou ‘não cometerás adultério’, e, portanto, eu a dou a eles.”
Por quê?
*RAV:*
Israel é essa propriedade superior que está acima de tudo.
Mas ela só surge no homem quando a luz superior chega até ele.
E quando, dentro do homem, começa a surgir a contradição entre quem ele é e quem é o Criador.
Qualquer pessoa no mundo, se começar a estudar o Livro do Zohar ou um pouco de Kabbalah,
após algum tempo começará a perceber o quanto não é, de fato, um justo —
como antes acreditava, mesmo que já tenha justificado a si mesmo.
Não importa se matou ou roubou antes — sempre se justificava.
Caso contrário, não teria conseguido realizar nenhuma dessas ações.
Ou seja, tanto boas quanto más ações, não importa.
Eu sempre me justifico e digo: “Era isso que eu tinha que fazer.”
Todos fazem isso, todos roubam, todos trapaceiam.
Ou digo: “Eu precisava fazer isso, é algo que me é devido, nasci assim, é minha natureza, é algo ou alguém.”
Sempre me justifico.
Mas quando a pessoa já não consegue se justificar —
quando surge uma lacuna entre quem ela é e quem gostaria de ser —
esse “abismo” começa a aparecer.
A diferença entre as propriedades atuais e as desejadas, entre os níveis.
É aí que a pessoa começa a buscar.
Ela deseja estar em um nível diferente, deseja ser de outra maneira.
Nesse momento, ela já pode ser chamada de Israel —
aquele que está diretamente orientado ao Criador, semelhante ao Criador.
*ENTREVISTADOR:*
E agora já se pode dialogar com ela?
*RAV:*
Sim.
Essa pessoa precisa de uma força que possa transformá-la.
Ela gostaria de se transformar.
Ela sabe que rouba, que comete adultério.
Sim, ela reconhece isso — mas o que significa reconhecer?
Significa que ela deseja sair disso.
Ela não apenas diz: “Bem, essa é a nossa natureza.”
“O que fazer?”
Ou, como quando você vê na televisão,
pessoas supostamente sábias e inteligentes falando.
Elas discutem o que acontece no mundo.
“Sim, esse somos nós.”
“E o que podemos fazer?”
“Somos assim, desse jeito.”
“E de todo tipo.”
Ou seja, não há consciência de que eu próprio devo sair desse nível para o próximo.
*ENTREVISTADOR:*
Por quê?
*RAV:*
Isso realmente não pode surgir em nenhuma pessoa.
Somente se ela estudar Kabbalah.
Após um certo período de preparação, chega o momento em que ela começa a perceber que precisa sair da sua própria pele — literalmente escapar dela, romper e sair para fora.
E então ela precisa dessa luz que a corrigirá, que realmente a elevará acima de si mesma.
É nesse momento que ela começa a necessitar do Livro do Zohar.
Porque, quando o lemos juntos — e já lemos vários trechos dele —
eles parecem todos incompreensíveis.
São completamente irreais.
Onde está a lógica, o raciocínio neles?
Tudo é tão confuso, estranho, muito peculiar.
E isso ocorre porque estamos atraindo a luz superior, que é irracional.
Para nós, é completamente...
Para nós é irracional?
*ENTREVISTADOR:*
Sim, não faz sentido.
*RAV:*
Por que estou me envolvendo nisso?
Porque desejo que uma força superior atue sobre mim
e me permita avaliar a mim mesmo em relação a ela.
Para que eu possa medir meu nível em relação ao dela.
Para entender como posso mudar, para onde e como — sem permanecer nesse nível.
Embora eu, de fato, não tenha predisposição ou necessidade especial para isso.
Mas mesmo assim, eu estudo.
Ou seja, quando uma pessoa começa a estudar Kabbalah,
ela está muito distante de entender para onde isso a levará.
Por isso se diz: “isso não é para você”, “isso não é necessário para você”, “aquilo também não”.
Mas a pessoa, mesmo que não veja necessidade disso,
e com seus desejos — que são chamados de linha direita, linha esquerda —
ela se justifica, acredita que não há nada de errado com ela,
e não precisa dessa luz que a devolverá à fonte, ao Criador.
Mas mesmo assim, ao estudar, ela acaba começando a perceber a necessidade dessa luz.
*ENTREVISTADOR:*
Existem esses mandamentos: “não roubarás”, “não adulterarás”, “não matarás”.
Sobre o que isso fala?
*RAV:*
Sobre cada um de nós, que a cada segundo mata, rouba e adultera.
*ENTREVISTADOR:*
A cada segundo?
*RAV:*
O fato de estarmos em nossos estados egoístas, não corrigidos,
já significa que estamos cometendo essas ações.
Se eu não corrigi minha propriedade de “não matarás” ou “não roubarás”,
significa que estou nelas.
Não importa se eu realmente prático ou não.
O julgamento espiritual avalia a pessoa pelo seu potencial.
Portanto, se existe em você a propriedade de, em algum estado, eventualmente matar,
então você já está matando agora.
Isso significa que você não é apenas um assassino em potencial...
Você já está matando.
*ENTREVISTADOR:*
Exatamente.
*RAV:*
No espiritual, não é necessário colocar a pessoa especificamente nessa situação.
Então, você é um assassino, um estuprador, um ladrão e tudo mais.
*ENTREVISTADOR:*
Maravilhoso.
*RAV:*
Sim, maravilhoso.
No momento, isso pode não me preocupar muito,
mas chegará o momento em que a pessoa começará a perceber
que essas propriedades, mesmo que sejam apenas potenciais, não realizadas,
começarão a ser sentidas como se fossem realizadas.
Ou seja, ela perceberá: agora estou matando, agora estou violentando, agora estou roubando, agora estou mentindo — e tudo isso sou eu quem está fazendo neste momento.
Então a pessoa começa a sentir que é culpada por todo o sofrimento do mundo.
E isso já se torna insuportável para ela.
De acordo com a luz que a ilumina e lhe mostra quem ela realmente é,
a luz também revela de onde vem.
Ela ilumina e mostra a fonte da luz.
E essa diferença entre a origem da luz — que é o Criador — e o que você é em potencial,
com todas as suas terríveis propriedades, cria essa sensação,
essa “diferença” entre esses dois níveis,
que se manifesta como um terrível estado interno de vergonha.
Essa vergonha que consome a pessoa é o que chamamos de inferno.
Na verdade, isso é o inferno.
E a pessoa deseja se livrar dele de qualquer forma — mas não é tão simples.
No inferno, a pessoa permanece por onze meses.
Não são onze meses no nosso tempo,
mas degraus pelos quais a pessoa passa enquanto experimenta esse estado,
compreendendo sua oposição ao Criador,
consumida internamente por todas essas terríveis sensações de diferença entre ela e o Criador,
até que, após esses onze meses, ela se corrige.
Corrige seu estado para se assemelhar ao Criador —
e assim seu estado interno passa a ser chamado de paraíso.
*ENTREVISTADOR:*
Professor, lembro que em um livro chamado _Shamati_, de Baal HaSulam, há uma expressão que há muito me intriga, especialmente em relação ao que estamos lendo agora.
Ela diz que, quando uma pessoa está nesse estado de inferno, sentindo o inferno,
ela entende que a única força capaz de tirá-la de lá, quando já não tem forças,
é essa força superior, de onde tudo emana.
Ela deve, ao mesmo tempo, sentir essa força superior,
porque só assim poderá realmente pedir por ajuda.
*RAV:*
Isso também vem junto com a luz.
*ENTREVISTADOR:*
Claro.
*RAV:*
Até que a pessoa sinta algo, nada acontece.
Por enquanto... tudo é abstrato.
*ENTREVISTADOR:*
Abstrato.
*RAV:*
Por isso a Kabbalah não exige da pessoa nenhuma condição prévia.
Apenas ouça, leia, assista.
Tudo o que esta ciência diz é que ela revela a você a força que te transforma.
Assim como uma criança em nosso mundo — ela cresce, muda e adquire novas propriedades.
Por isso, a cada dia, ela se torna outra pessoa.
Um adulto não se torna outro — ele apenas se preenche com novas impressões e conteúdos.
A criança se torna outra.
Ela adquire ainda mais, e se torna ainda mais.
A Kabbalah, quando atua sobre nós, adultos,
faz crescer dentro de nós um novo ser humano.
E assim adquirimos novas propriedades, um novo intelecto.
E então, a cada dia, somos algo novo.
Esse é o atributo especial pelo qual nos tornamos Adam — iguais e semelhantes ao Criador.
Isso acontecerá dentro de nós.
Basta apenas abrir o livro sistematicamente, estudar.
Para isso, temos todas as possibilidades disponíveis na internet.
Convido todos — e as pessoas verão como, de um dia para o outro,
ou pelo menos de semana em semana, elas perceberão as mudanças que ocorrem com elas.
*ENTREVISTADOR:*
Portanto, é-nos proposto que nos tornemos mais ingênuos?
*RAV:*
Sim, sim.
Tornar-se mais ingênuos, aproximar-se das crianças na percepção —
na percepção daquela nova realidade que deve ser revelada a nós.
E se nos comportarmos assim, então...
então nos tornaremos realmente adultos.
*ENTREVISTADOR:*
Nos tornaremos realmente adultos.
Tudo de bom, obrigado, professor.
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