Estados Espirituais
Caverna de Machpelah
23 de Abril de 2021 21:07min
Texto para Legenda
Sanilevich: Olá a todos, continuamos a nossa série de programas sobre estados espirituais. Como de costume, temos conosco o Dr. Michael Laitman.
Rav: Olá.
Sanilevich: O nosso tópico de hoje é a Caverna de Machpelah, a Caverna dos Patriarcas. Que significa literalmente “o túmulo das duplas sepulturas” (Machpelah). Não fica longe daqui, talvez 150 km, na parte antiga de Hebrom, onde, de acordo com a Torá, estão enterrados os nossos Patriarcas, Abraão, Isaac e Jacó e também suas esposas. A tradição diz que é também onde Adão e Eva estão enterrados. Dr. Laitman, a minha pergunta é, sabemos que na Cabalá qualquer nome tem algum significado. Por que esta caverna é chamada de dupla?
Rav: Porque a Caverna de Machpelah representa a conexão de dois mundos – o nosso mundo e o Mundo Superior. E embora os corpos do nosso mundo repousam ali, o espírito das pessoas enterradas nele é o espírito do Mundo Superior.
Sanilevich: Dr. Laitman, quando o senhor diz “dois mundos”, quer dizer duas propriedades: receber e doar – Malchut e Biná?
Rav: Certo.
Sanilevich: É interessante que uma caverna seja um lugar especial na terra onde você pode viver. Mas, em princípio, é impossível viver numa caverna. Do ponto de vista da Cabalá, a terra é “ratzon”, “desejo”, e não há vida lá. E de repente acontece que existe um lugar na terra onde você pode viver. O que é isso, Dr?
Rav: Isso é criado pela natureza, ou de forma artificial pelo homem. Tal lugar inclui nele todas as condições necessárias para que seja possível viver lá, como se não estivesse numa caverna. Mas neste caso, uma caverna ao mesmo tempo protege e preserva uma pessoa que esteja nela. Sabemos que os autores do Livro do Zohar, Rabi Shimon e o seu filho viveram numa caverna durante muito tempo e muitos dos nossos antepassados viveram em cavernas, como está escrito. Mas o objetivo aqui de uma caverna não é enterrar-se em algum lugar no chão e se esconder de alguém. Seu significado é espiritual, ou seja, por um lado, uma pessoa, em geral, é humilhada e escondida de todos. Por outro lado, é precisamente na sua anulação que ele une a propriedade de Biná e Malchut – a propriedade de doação do Mundo Superior e a propriedade de recepção do Mundo Inferior. Assim, na terra, na qual não há, em geral, nada adequado para a vida humana, ele cria tal lugar, cria nele (em Malchut) tais condições que seriam iguais ao ar (o mundo Superior). E é assim que ele vive.
Sanilevich: Em outras palavras, graças a Biná, a qualidade de doação, pode-se viver em uma caverna.
Rav: Sim.
Sanilevich: Mas, Dr. Laitman, normalmente a qualidade de Biná é água e o Sr, chamou-lhe “ar”?
Rav: Bem, neste caso é como o ar.
Sanilevich: Como, Dr.?
Rav: Temos que compreender que isto é tudo alegórico. Não é sobre uma pessoa ou nações, etc, etc, que viveram numa caverna ou em algum tipo de abrigo. Não nos acrescenta nada. Mas aqui, a pessoa escolhe conscientemente tal estado, tal modelo de comportamento que o elevaria do ego chamado de “terra”, e obtém a qualidade do altruísmo, da doação, a propriedade de conexão com outras pessoas, chamada Biná.
Sanilevich: Dr. Laitman, como podem estas duas qualidades contraditórias existir em conjunto?
Rav: Pelos seus esforços, a pessoa cria essas qualidades dentro de si. Ela atrai para si a qualidade da Luz, do Mundo Superior, da doação, que é na realidade a qualidade do Criador, a qualidade de Biná. E com a ajuda dessa qualidade, organiza dentro de si mesma, este tipo de abrigo, de onde ela não pode inteiramente elevar-se, existir no Mundo Superior, num mundo mais elevado. Mas, cria para si mesma, este estado que é como uma bolha, preenchida das qualidade do Mundo Superior, e existe dentro dele.
Sanilevich: Podemos dizer que uma caverna é como um ambiente, com dez pessoas, Dr. Laitman?
Rav: Sim, um ambiente, dez pessoas. Para o assunto em questão, a caverna é um ambiente de amor e doação que podemos criar no nosso mundo até um certo limite.
Sanilevich: Digamos que uma pessoa criou tal ambiente ao seu redor e, de repente, descobre ali seus antepassados. Ou mesmo Adão, Eva? Como entender isso?
Rav: Significa que, quando uma pessoa quer ver o mundo inteiro em unificação, em doação, em conexão mútua, ela revela neste mundo propriedades que anteriormente estavam escondidas dela. Ela sente que realmente existe uma qualidade de doação, amor, unificação, elevando-se acima do egoísmo. E para ela não existem mais barreiras ou restrições; mas ela vive nesse reino, nessa força que criou através da sua qualidade de doação.
Sanilevich: Dr. Laitman, por que é que a maior parte das pessoas tem medo de cavernas?
Rav: Qualquer caverna é um espaço muito fechado, uma ameaça à vida humana; tem uma limitação do ar, do movimento, rumo ao desconhecido. Mas aqui, quando falamos de cavernas, falamos do que acontece na Torá, então aí, estamos falando da qualidade de doação e recepção, Biná e Malchut, que a pessoa cria de propósito dentro de si mesma, por intermédio de sua correção, E mesmo estando na propriedade de Malchut (recepção), ele se encontra existindo no Mundo Superior, na propriedade de doação. Portanto, para ela é uma benção.
Sanilevich: Mas, Dr. Laitman, isto é o oposto da nossa propriedade natural de receber. Talvez seja por isso que as pessoas têm medo de cavernas?
Rav: Bem, se estivermos falando de uma pessoa normal, sim. Mas, se estivermos falando de uma pessoa que está tentando elevar-se da qualidade de recepção (o nosso mundo), para a qualidade de doação, chamado de Mundo Superior, então em nosso mundo, mesmo que uma pessoa encontre um estado onde possa permanecer temporariamente na propriedade de doação em um espaço e tempo limitados, este é um grande sucesso e uma grande descoberta para ele.
Sanilevich: Diz-se no livro do Zohar, que quando Abraão entrou na caverna pela primeira vez, viu uma luz, a poeira se abriu diante dele, e duas sepulturas foram abertas. Então, um homem como ele em forma, levantou-se na sepultura, olhou para Abraão e sorriu. Com isso, Abraão soube que estava destinado a ser enterrado ali. Dr. Laitman, do que estamos falando aqui? O que significa “Eu vi meus antepassados, seus túmulos”? Por que tudo isso teve que ser descrito dessa maneira?
Rav: De que outra forma descreveria isso?
Sanilevich: Só para explicar de outro modo, sobre o que isto fala?
Rav: Significa que uma pessoa vê que, ao trabalhar nela mesma, ao alcançar uma qualidade semelhante a do Criador, uma qualidade que é de amor para com os outros, etc, ela alcança tal estado, em que se reforma na qualidade de amor e doação. Todo o seu ego vai tornar-se no estado oposto, e então, ela vai ser capaz de se concretizar com todas as qualidades corretas, e nada não corrigido vai existir dentro dela, e ela vai existir no Mundo Superior.
Sanilevich: E isto é algo que ela descobriu numa caverna, Dr.?
Rav: Na realidade não é uma caverna. É uma espécie de sensação, de realização, chamada de “Caverna”.
Sanilevich: Então, Dr. Laitman, ele (Abraão) viu Adão, viu-o na sua imagem, e ficou feliz porque era assim que ía ser? Adão da palavra Domé, que significa “tornar-se semelhante a”.
Rav: Sim. Ele alcançou a sua raiz e viu que a sua raiz existe na raiz geral de todos os que existem. Adão é a nossa força espiritual, o nosso Patriarca.
Sanilevich: Dr. Laitman, mais à frente no Livro do Zohar está escrito que nesta Caverna dos Patriarcas, há uma entrada para o jardim do Éden. É isso?
Rav: Porque na Caverna de Machpelah há uma ligação entre Biná e Malchut. Biná é a qualidade do Mundo Superior e Malchut a qualidade do nosso mundo. E na Caverna de Machpelah, este é um estado em que a pessoa passa, onde ele combina este mundo e o Mundo Superior e começa a revelar o que existe no mundo Superior em certas propriedades - não completamente, não de forma final como nos nossos Patriarcas, como assim nos diz no Livro do Zohar, etc.
Sanilevich: Dr. Laitman, tenho esta sensação que seja qual for a história, por mais interessante, no Livro do Zohar ou na Torá, tudo se resume à qualidade de Biná e Malchut, a qualidade de recepção e a qualidade de doação.
Rav: Sim. Mais e menos juntos, formam tudo. Receber e dar são duas principais propriedades opostas da natureza. A propriedade do Criador (doação) é uma força positiva, e a propriedade da criação (recepção), que Ele criou especificamente para que o oposto dEle existisse, é uma força negativa. E toda matéria existe na conexão, fusão, simbiose dessas duas propriedades.
Sanilevich: Dr., é como pegar no nosso mundo, que é criado a partir do carbono e do hidrogênio, e nas ligações entre eles…
Rav: Partículas elementares. Assim como na matemática existe zero e algo diferente dele - apenas duas propriedades, e a partir desse estado você pode construir qualquer ciência.
Sanilevich: Então, Dr. Laitman, tudo que está descrito aqui, você só precisa sentir? Caso contrário, permanecerá em você como uma história ou apenas como uma explicação seca – Bina, Malchut, e isso é tudo?
Rav: Bem, não é uma explicação seca. Temos a qualidade de recepção que é a qualidade fundamental, na realidade a única qualidade existente na criação e em todos os mundos. E para além disso, aparece a qualidade de doação e a qualidade de recepção, desenvolve a qualidade de recepção, que é o seu oposto, e em relação a ela, cria todos os mundo, até que alcançam um estado em que são semelhantes, mas opostas uma à outra.Tudo o que existe é feito disso. E uma pessoa deve encontrar dois mundos, igualá-los e uni-los em si mesma.
Sanilevich: Também, Dr. Laitman, dizem que a Caverna de Machpelah é o segundo lugar mais sagrado depois do Templo, que já foi destruído. Vale a pena visitar fisicamente esses lugares?
Rav: Sim, vale a pena. Rabash escreveu que Baal HaSulam viajou para lá. E quando o Rabash perguntou a ele: “Por quê?” - respondeu que a pessoa deve lutar pelo lugar dos seus antepassados. E em Hebron todos os ancestrais foram enterrados (embora a palavra “enterrado” seja uma alegoria).
Sanilevich: Uma pessoa que começou a estudar Cabalá, aqueles que ouvem os nossos programas, ou aqueles que nem sequer começaram, como podem usar esta informação corretamente, Dr. Laitman? Eles ouvem aquilo de que falamos. Como podem usar corretamente para desenvolvimento espiritual?
Rav: Para o desenvolvimento espiritual há várias opções. Primeiro, é melhor não pensar ou falar de tais lugares espirituais que existem, porque as pessoas pensam que possuem forças especiais lá e começam a fazer peregrinações e adoração, o que realmente não é o objetivo da nossa conversa. Talvez interesse uma pessoa por uma razão histórica ou geográfica. Isto são coisas muito interessantes, porque tudo no nosso mundo tem uma raiz no Mundo Superior. E portanto, é bom olhar para isso de forma precisa desse ponto de vista.
Sanilevich: Não sei se é por acaso mas, é um lugar bastante perigoso. Não é um lugar que seja possível ir fazer uma visita. É um lugar ameaçador para a vida humana, apesar de ser também, um lugar sagrado.
Rav: Relativamente a estes lugares únicos, há sempre alguém que os quer controlar. E portanto, há guerra à volta destes lugares, especificamente sobre quem os vai controlar, e neste momento a disputa é entre o Islã e o Judaísmo.
Sanilevich: Bom, estamos abordando este assunto em aspectos espirituais, correto, Dr.?
Rav: Sim, e nesse aspecto de todo.
Sanilevich: Dr., posso imaginar essa caverna de Machpelah para mim mesmo, como uma dezena na qual tenho a oportunidade tanto de doar e receber, equilibrar o meu ego? Como posso imaginar isso desde de uma caverna estar num estado de doação?
Rav: Sim. Mas não é a caverna dos antepassados Mas, algo que devemos construir dentro de nós mesmos, refletir esse tipo de propriedade nas quais a qualidade de doar e o amor são revelados – defini-los nas propriedade de Biná em relação à propriedade da “terra” (Malchut). Portanto, qualquer avanço que venhamos alcançar nestes estados, faz com que a conexão entre nós, dentro do grupo, flua a todo o mundo. Podemos sentir essas propriedades, uma propriedade que é um grupo, ou mesmo, pode-se dizer, uma caverna de alguma forma.
Sanilevich: Então, Dr. Laitman, na realidade, é acerca de criar um ambiente para a pessoa, onde ela possa desenvolver esta qualidade de doação?
Rav: Sim.
Sanilevich: Muito obrigado, Dr. Laitman! Foi muito interessante! Através desta história aparentemente externa sobre a Caverna de Machpelah, abordamos algumas propriedades internas.
Rav: Para mim, não é uma história externa, é tudo uma só história e todas as manifestações físicas que possam ocorrer nestes lugares não me preocupam, porque para mim, não é algo físico, mas apenas interno. Mas no geral, claro que estes lugares são muito interessantes.
Sanilevich: E é por isso que temos estes programas, e que os gravamos. Porque uma pessoa que vive neste mundo não sabe que existe este “outro mundo”. E precisamente, através da conexão neste mundo, mostrar estes estados internos, e é disso que falam os nossos textos cabalísticos. Muito obrigado!
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